Rede de Túneis

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Rede de Túneis

Mensagem por Mestre do Jogo em Qui 8 Jan - 2:20



Vários metros abaixo da vida agitada de Vancouver há um outro mundo, muito mais escuro e sombrio do que seu irmão iluminado, e muito mais extenso. Os túneis de esgoto e de metrôs que cortam a cidade por todos os lados formam um verdadeiro labirinto e escondem muitos dos mistérios que as mentes racionais dos bons cidadão de Vancouver jamais entenderiam. Ninhos de ratos, abrigos de sem-teto, esconderijo de traficantes, rotas de tráfico. Parece irônico que o submundo da cidade esteja realmente abaixo dela.

Através dos túneis é possível chegar a qualquer parte da cidade. Muitos bancos e outras instituições que guardam valores em seus interiores já sofreram pelo menos algum tipo de “assalto toupeira” que é como passaram a ser conhecidos estes assaltos onde os meliantes cavam túneis sob o chão de seus alvos. A tática é antiga, começou quando o primeiro metrô que cortava Vancouver foi criado. Hoje somente bandidos muito desinformados tentam este tipo de golpe já que os bancos e lojas, zelosos de seus patrimônios e os de seus investidores, passaram a instalar alarmes sísmicos que soam imediatamente nas Seguradoras e Delegacia toda vez que algum engraçadinho tenta cavar um buraco.

Lendas urbanas que têm se multiplicado assustadoramente nos últimos anos falam sobre o desaparecimento de vagabundos e sem-teto que buscam abrigo da chuva e do frio dentro dos túneis. Dizem que durante a madrugada, quando as ruas estão vazias e o silêncio varre a cidade, pode-se ouvir gritos de horror vindos de dentro dos bueiros. Mas tudo que se tem de concreto destas lendas foi obtido ano passado. Um grupo de estudantes de cinema, ignorando a ordem de afastamento da polícia, decidiu entrar na rede de túneis para fazer um documentário sobre os lendários desaparecimentos misteriosos.

Uma semana sem aparecerem nas aulas ou em suas casas, e após a polícia revirar a cidade, e os túneis de cabeça pra baixo, os corpos deles foram encontrados numa das galerias mais antigas da cidade. Os corpos já estavam em estado de decomposição. O resultado da autópsia foi mais misterioso do que as lendas pelas quais os garotos morreram. Apesar de estarem sem um único ferimento em seus corpos, eles estavam totalmente sem sangue, nem uma gota, nada. Como isso aconteceu, não se sabe. Não existe meio para explicar tal coisa... talvez por isso a polícia optou por não divulgar este detalhe aos jornais, revelando-o somente aos parentes dos mortos.

Desde este famoso caso a polícia passou a efetuar rondas também pelas entradas das principais galerias subterrâneas da cidade, e tem ordem de deter qualquer pessoa não autorizada que esteja vagando por lá. Este esforço se fez necessário após a polícia aprender, a duras penas, que o ser humano não pode ver algo que tenha grandes chances de dar errado, que ele vai lá e tenta fazer. Com o caso da morte dos jovens universitários sendo coberto por toda a imprensa de Vancouver, o número de incursões às galerias aumentou significativamente. Algumas agências de turismo, especializadas em passeios radicais pelas montanhas e corredeiras da cidade, criaram pacotes clandestinos de visitação aos Túneis. Custo alto e pouca propaganda foi toda a propaganda que precisaram para atrair vários turistas ávidos por sentirem a adrenalina correndo em suas veias ao visitarem lugares proibidos e assustadores.

As lendas sobre os desaparecimentos continuam... quais serão verdadeiras, e quais apenas fantasia?

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Re: Rede de Túneis

Mensagem por Jessica Red em Seg 17 Abr - 10:18



Numa praça sem muita movimentação, Jessica desce do táxi e caminha pelo lugar que antigamente era o seu “pedacinho do céu”. Ainda tinham alguns sem-tetos se ajeitando pra passar a noite e outros que estavam em busca do paraíso em um comprimido.

Já tendo passado por isso, ela sabia que era só passar sem encarar que não haveria problemas. Afinal todos ali estão buscando solução imediata para os seus problemas. Ela caminha para a área que ela se lembrava que tinha uma entrada para os esgotos dá uma boa olhada na imagem no bilhete deixado.

Quem a queria aqui? Seria algum dos seus antigos contatos? Traficantes que sabiam que ela estava trabalhando no Hell’s? Vender drogas lá dentro não era a coisa mais fácil, mas ela estava dando um jeito de vender algo muito mais vantajoso pra ela, pelo menos até essa noite.

Na entrada principal da galeria de túneis, havia policiais fazendo uma ronda. Verificando o portão e simplesmente deixando “passar batido” os indivíduos que a alguns metros de distância confraternizam com todo tipo de entorpecentes.

Segundo a foto, tem uma entrada lateral. A qual ela consegue abrir a grade e adentrar o primeiro nível do esgoto. O cheiro já não era dos melhores, o nariz arde, o estomago revira, o corpo dobra como se fosse vomitar, mas ela não tem nada pra por pra fora. Leva uma das mangas sobre o nariz cobrindo-o e parte da boca.

É escuro apesar de algumas luminárias ainda estarem funcionando precariamente, ela vê a imagem no papel, o mapa parece um labirinto.

Continua seguindo e pensa será que o suposto contato já tinha chegado? Será que seria uma armadilha? Ela dá uma olhada no papel novamente, ansiosa passa o dedo pelo local com uma mancha de sangue.

- Olá! Tem alguém aí?

Ela chama, porque apesar de parecer uma estupidez, seria mais fácil virar e sair caso fosse uma emboscada. Não tinha ideia do porque aquele papel tinha parado no seu armário.

Havia um monte de possibilidades, e algumas podiam mesmo ser letais. Mas a opção de encher a cara com o vampiro que depois de uma noite conturbada, duvidava que quisesse confraternizar.

Parou numa bifurcação do caminho, olhou para os dois lados, e para a foto. Seguindo para o local mais próximo da mancha de sangue, que infelizmente também era o local mais fétido.
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Re: Rede de Túneis

Mensagem por Kerberus em Seg 24 Abr - 3:37

Klaus Reinhardt era um covarde. Na melhor das hipóteses segundo seu pai Joseph, um borra-botas e na pior era a forma que o Senhor Todo Poderoso encontrou para puni-lo (ele, Joseph) por todos os seus maiores e piores pecados por todos os dias, o dia todo, até o fim da sua vida miserável. O padre Michael, durante as conversas privadas que ocorriam quando o bom servo de Deus visitava a sede da fazenda Reinhard em busca de “doações” para aliviar a dor dos doentes e famintos do vilarejo às margens do Danúbio, insistia no argumento que, as vezes, Deus escolhe meios misteriosos para testar a fé de seus filhos, e que isso por si só deveria ser motivo de júbilo para Joseph, e não o contrário. Claro, o padre Michael falava isso do alto de uma barriga saliente que curiosamente parecia aumentar de circunferência após cada recebimento das doações que iriam “aliviar a dor dos doentes e famintos do vilarejo às margens do Danúbio”... em sua mente Joseph acreditava tanto que o padre já havia passado por uma provação como aquela quanto acreditava que as doações iriam de fato para os “doentes e famintos do vilarejo às margens do Danúbio”.

A opinião de Joseph acerca do filho, no entanto, era fruto de anos de convivência e observação íntima, em suma, feita a partir de um ponto de vista privilegiado. Para a sociedade, de forma geral, Klaus era apenas mais um típico rebento da aristocracia alemã. O garoto nasceu com a junção perfeita entre os traços finos da mãe, Eleanora, e pontos marcantes do pai, como os olhos e o cabelo lustroso da cor de azeviche. Sua mente rápida aliada à sua astúcia seria outra característica desejável a qualquer filho, por isso foi com uma inquietação crescente que Joseph assistiu seu primogênito invariavelmente utilizar tais virtudes de maneira torpe e com propósitos sinistros. Ele começou com as mentiras, ainda na infância, fazendo recair especialmente sobre os empregados a culpa pelos objetos quebrados, a sujeira dentro de casa, as pinturas na parede... coisas que praticamente todas as crianças que são criadas com liberdade acabam por fazer uma vez ou outra, mas aquele foi o princípio de algo que não poderia ser encarado como uma das fases da vida, mas sim como um ensaio que progredia e crescia como uma planta regada e adequadamente adubada, só que ao invés de água e esterco, as mentiras de Klaus eram encobertas pela estima e total incapacidade de Eleanor em visualizar em seu filho, a quem ela alimentou do próprio seio,  o monstro em fase de crescimento que evoluía diante de seus olhos.

Com o passar dos anos, Klaus foi sistematicamente testando os limites de aceitação a que estava sujeito pelas convenções sociais, sem colocar em risco o amor de sua mãe que a esta altura era a única barreira de proteção com que ele podia contar contra os castigos severos (que ele sabia perfeitamente) o pai poderia aplicar. E tendo assim, encontrando um terreno fértil no âmago do amor cego e inflexível de sua mãe, Klaus prosperou em suas maquinações, acumulando empolgadamente camada sobre camada de pequenas maldades. Aos 10 anos o garoto já tinha uma boa noção de como infringir as regras sem exceder os limites do suportável e foi também com esta idade que ele descobriu que o sofrimento dos outros não era algo que lhe causava compaixão, nem solidariedade nem lhe despertava nenhum outro tipo de emoção humana levemente ligada à empatia, ao contrário, havia certo regozijo em observar as pessoas sofrerem, mas não pelo simples sofrimento, e sim por um sofrimento que de maneira indireta era atribuído a ELE próprio.

Joseph nunca viu de forma explícita, embora o eriçar dos pelos de sua nuca o alertarem, que cada vez que um dos empregados da fazenda era punido com chicotes ou ferros, Klaus estava estrategicamente oculto e posicionado para assistir à punição que se seguia e um sorriso doente nascia e alastrava-se pelo seu rosto a cada grito de dor e pedido de clemência. Quando os incidentes começaram a ganhar uma frequência anormal, Joseph passou a ser mais diligente antes de decretar as punições mais severas aos empregados, algo dentro dele gritava que alguma coisa estava errada, simplesmente não havia motivos para empregados de tantos anos passarem de uma hora pra outra a tornarem-se propensos a roubar jóias de família ou a abater animais indefesos e caros como os cavalos e touros premiados que o patriarca dos Reinhardt criava com orgulho e certa vaidade, aliás... havia um motivo, um que ia ganhando forma física cada vez mais clara todas as vezes em que Joseph olhava para o rosto de seu filho. Mas fosse como fosse, sempre haviam provas materiais do envolvimento dos empregados em tais crimes... pertences pessoais próximo aos animais mortos, pedras preciosas que inexplicavelmente caiam de suas roupas durante seus trabalhos próximos aos Reinhardt, e nada se relacionava a Klaus... mas os pelos da nuca de Joseph continuavam a alertá-lo.

Na puberdade, quando os hormônios explodem, a onda de incidentes na fazenda tornou-se uma espécie de frenesi e todos os olhos passaram a recair sobre Klaus, os empregados o evitavam, os homens e mulheres da cidade não queriam ter nada a ver com ele, e até sua própria mãe sentia em seu coração que algo maligno parecia habitar a alma de seu filho, mas sempre que tal sentimento vinha à tona ele era imediatamente obliterado pela empertigada Eleonora que jamais poderia ver em Klaus outra coisa senão o seu filho amado, o qual ela “alimentou do próprio seio”. Eleanora não poderia saber, mas foi justamente a sua militante super proteção e absoluta fé na inocência capital do filho que viriam a possibilitar a sua captura em flagrante, pois a mente criminosa e desequilibrada que encontra quem a defenda de forma impetuosa e de fato a impeça de receber o castigo e as punições por seus atos raramente se contenta com o que consegue obter, ao contrário, sente-se impelida mais e mais em busca de novos níveis de satisfação.

E foi assim que aconteceu, naquela noite estrelada e fria em que Joseph seguiu na surdina um Klaus de 15 anos que se dirigiu sorrateiramente pelas sombras, após ter descido de seu quarto pulando a janela e escalando a cerca viva ao lado da casa quando todos estavam dormindo, até os estábulos, onde ele entrou fazendo tanto silêncio quanto um gato prestes a dar o bote em uma presa desavisada. Com a paciência e o sangue frio que apenas um homem vivido é capaz de desenvolver Joseph manteve-se no rastro do filho em segredo, seguindo-o de perto. Nos dias que se seguiram foi com a dor trazida pela amargura que ele percebeu que não ficou surpreso com o que estava prestes a ver naquela noite fatídica quando assistiu o filho aproximar-se da baia de seu mais novo garanhão com torrões de açúcar na mão, aos quais fizeram o belo animal aproximar-se da porteira, cheirar a mão de Klaus e começar a triturar os torrões com os dentes em seguida enquanto o rapaz alisava sua crina lustrosa e castanha por breves momentos enquanto sua outra mão descia para retirar do bolso externo de seu jaquetão uma grande e afiada faca, que logo Joseph constataria, havia sido subtraída de sua cozinha.

O cavalo empinou sobre as patas traseiras, tentou relinchar enquanto seus olhos se reviravam de maneira selvagem e seu corpanzil se debatia contra as paredes de madeira da baia, mas o sangue que escorria em profusão fluía diretamente através do profundo corte feito em sua garganta, de maneira que os sons que emitia eram rudes, abafados e gorgolejantes enquanto Klaus observava com fascinação e um estranho brilho nos olhos o animal agonizar lenta e dolorosamente, até tombar no chão em espasmos e o sangue formar uma poça viscosa sobre o chão de terra e palha. E Joseph achou que estava enlouquecendo quando observou Klaus tirar seu membro viril de dentro da calça e começou a se masturbar freneticamente enquanto o animal passava dos estertores convulsivos para a solícita quietude da morte. Qualquer um teria apanhado o garoto nesta hora, ali estava toda a constatação do crime, não haviam intermediários, Joseph havia assistido com seus próprios olhos a toda a cena, ninguém lhe contou, ele viu, Eleanora poderia revirar-se dentro das roupas sugerindo as mais fantasiosas histórias para justificar os atos do filho ou para insistir que Joseph estava delirando, mas não estava, e não se pode justificar o injustificável.

Mas alguma força além da compreensão manteve Joseph inabalavelmente imóvel, não inconsciente ou alheio ao que acabara de ver, mas simplesmente imóvel e quieto como as águas escuras nas profundezas de um lago “Foi a vontade do Criador, para me impedir de continuar com os castigos injustos” pensou ele depois do ocorrido, lembrando-se de cada chibatada e queimadura com ferro quente que foram administradas sob seu comando desde o nascimento de Klaus. Ele aguardou o filho concluir o seu ritual erótico bizarro e o seguiu para fora do estábulo, e estava a menos de 20 passos de distância quando o viu entrar no quarto de uma das dependências de empregados da fazenda. Teve que se apressar para ver o restante da cena após o menino ter fechado a porta e se não fosse pela janela aberta seus olhos não teriam registrado o final do ato perverso de Klaus, que furtivamente depositou a faca ainda manchada de sangue sob a cama de uma das cozinheiras da casa dos Reinhardt... esta sim era o verdadeiro alvo de Klaus, o cavalo serviu tão e somente como um veículo de sua mente deturpada. Joseph percebeu, sem surpresa, que aquela era justamente uma das cozinheiras que o filho havia descoberto ser a responsável pelo doce de limão que ele havia comido na manhã anterior e abandonado após uma única garfada, alegando que aquilo não serviria de comida nem para os cães.

Na saída da casa dos empregados, algo duro e rombudo acertou a nuca de Klaus, fazendo-o desmaiar e ter o seu corpo arrastado pela grama perfazendo o caminho de volta na direção dos estábulos onde ele acordou minutos depois sobre a luz de um único lampião a óleo. Sua cabeça latejava com ferocidade e sua visão demorou um pouco a entrar em foco para perceber que ele estava sentado e diante dele estava Joseph, o seu pai, também sentado e no colo deste repousava uma grande, nova e (Klaus percebeu sem ter que perguntar) armada e engatilhada espingarda. O rosto do pai o cortava como lâminas, não estava com a característica severidade, nem parecia estar enraivecido, nem consternado, nem assustado mesmo que as solas de suas botas estivessem sobre o sangue do garanhão recém abatido. Foi esta visão do pai, e essa constatação que o fez ficar em silêncio... isso, e um medo que começava a latejar em seu estômago.

- Hoje, eu e meu filho saímos para caçar raposas. – disse o velho Reinhardt para seu único filho

- Nós saímos no meio da noite, pois era hora dele aprender mais sobre ser um homem e todos os homens devem aprender a caçar e a manejar armas de fogo. – continuou ele para um Klaus completamente calado.

- Não falei nada pra você porque sabia que em seu amor de mãe você jamais permitiria que seu filho corresse o risco de ser atacado por algum animal selvagem nas florestas, ou que seu cavalo tropeçasse em alguma pedra ou raiz e o fizesse cair e quebrar o braço, ou Deus o livre, o pescoço. – não havia nem a menor sombra de emoção na voz de Joseph, que seguia o discurso em tom monocórdico.

- Não existe uma maneira de suavizar o que vou lhe dizer e sei o quanto lhe custará escutar, mas nosso filho está morto, Eleanora. – continuou ele, e Klaus percebeu pela primeira vez que o pai estava com seu uniforme completo de caça.

- Ele avançou de forma impetuosa quando avistou uma raposa, eu tentei segurá-lo, gritei para que parasse, mas o garoto não me ouviu. Eu tentei acompanha-lo, mas meu cavalo tropeçou e fui eu a cair sobre as pedras, esfolando todo o meu braço esquerdo. – Joseph ergueu a manga do casacão verde, revelando a pele arranhada do braço esquerdo, sangue ainda escorria das feridas e empapava o lado interno do tecido.

- Eu ouvi os gritos, corri para ajudar, mas já era tarde demais. Ainda tive tempo de disparar duas vezes, mas a coisa já estava feita. Era uma matilha de 6, eles devoraram nosso filho, Eleanora, os lobos devoraram o nosso menino. – esta foi a primeira vez que Klaus viu uma alteração na expressão do pai, o suave traço de um sorriso, o erguer de um lábio.

- Quando o sol nascer nesta manhã é isto que direi para sua mãe, com ela chorando abraçada em mim, talvez desmaiando em seguida. – ele fala, movendo a espingarda até colocar o peito de Klaus sob a alça de mira.

- E se eu voltar a ver a sua cara aqui na fazenda, ou na cidade, ou se ouvir falar de algum conhecido que o viu por aí, você desejará ter sentido a clemência dos lobos, rapaz. Entendeu?

Estas foram as últimas palavras trocadas entre Klaus e seu pai Joseph Reinhardt. Na mesma madrugada o garoto partiu da fazenda no lombo de um dos cavalos que era utilizado para arar os campos de plantação da família, um animal forte mas medíocre cujo roubo seria posteriormente atribuído a algum ex empregado vingativo. Klaus não soube mais notícias da mãe, assim como do pai, ou da fazenda, ou da própria Alemanha que ele abandonou nos dias e meses seguintes, estabelecendo-se em países vizinhos e colocando distância entre o presente e o passado. Aos 25 anos Klaus já havia passado pela Áustria, Hungria, Romênia, Ucrânia e finalmente chegou na Rússia, onde se estabeleceu e passou a viver de suas pinturas que passou a vender em vilarejos menores até sua popularidade e talento começarem a chamar a atenção de membros mais abastados da sociedade que foram enchendo seus bolsos e permitindo que passasse a ter uma vida, senão luxuosa, mas com conforto suficiente para poder mover-se pelo país em busca de cidades maiores que poderiam lhe render novos clientes e maiores pagamentos deixando atrás de si índices de assassinatos anormalmente altos e bárbaros que voltavam a diminuir cada vez que uma cidade era substituída por outra.

Quando chegou em Moscou, Klaus encontrou o ambiente perfeito para fazer prosperar tanto sua arte quanto os seus crimes particularmente hediondos em meio a uma população efervescente. Foi contratado para retratar várias cenas religiosas que se multiplicavam em afrescos, quadros e até mesmo iluminuras e foi também onde aprendeu que as mulheres dos seus melhores clientes pareciam particularmente inclinadas a encomendar retratos íntimos, colocando-se à disposição do belo pintor como modelos para que ele pudesse extrair delas o máximo de veracidade a cada pincelada sobre a tela e sobre a cama. Eventualmente estas mulheres começaram a encontrar em Klaus não só um artista talentoso e um amante interessado, mas também um ouvindo atento e sempre pronto a discutir sobre os problemas de suas vidas íntimas com os maridos traídos. É impressionante a maneira prolífera e despudorada com que certos segredos são revelados sob as circunstâncias certas, especialmente no pós coito, de forma que Klaus passou a saber com regularidade quais de seus clientes eram trapaceiros, quais eram adúlteros (adultério com outras mulheres de garbo e elegância, pois via de regra, quase todos os homens eram potenciais traidores mesmo que pelas mulheres da ralé e sem importância, e estas não eram dignas de nota), quais tinham preferência por rapazes, quais eram viciados em ópio, e quais conspiravam contra o governo ou contra seus pares para leva-los a ruína.

Foi assim que com 27 anos o jovem Reinhardt passou a também exercer a chantagem como meio de ganhar a vida e descobriu que isso rendia ainda mais do que suas pinturas. As palavras certas nos ouvidos certos, o que ser dito e o que ser mantido em sigilo valiam muito mais do que ouro, valiam trocas e valiam a agonia que cada chantageado sentia pelo risco do chantageador decidir quebrar o sigilo mesmo após o pagamento. Também valiam vítimas, tanto as insignificantes quanto as de certo destaque, de maneira que Moscou tornou-se seu abatedouro particular onde as autoridades passaram a encontrar corpos mutilados e brutalizados espalhados a esmo pela cidade. Mas se a vida trouxe experiência ao primogênito Reinhardt, ela não suavizou seus impulsos crescentes, fazendo assim retornar a sua onda crescente de necessidade sobre a morte. Ele sabia que era perigoso, sabia dos riscos, mas sua natureza narcisista lhe dava a ideia (equivocada) que ele era inteligente demais para ser pego por um bando de homens de mente embotada e raciocínio curto. E sentia-se extasiado quando ouvia as pessoas falarem com medo e repugnância cada vez que um novo cadáver era encontrado.

Em 18 meses a quantidade de corpos encontrados mutilados já chegava quase a duas dúzias, teria chegado a três dúzias e meia se alguém capturasse Klaus e o forçasse a confessar a verdade, mas não o capturaram... não as autoridades competentes pelo menos. Quem finalmente descobriu a verdadeira natureza psicopata de Klaus e sua total falta de princípios morais e de consciência foi um de seus clientes, um romeno que havia contratado os serviços do pintor alemão por 3 vezes no passado. Klaus lembrava-se dele, era um sujeito esquisito que, à exceção dos empregados, morava sozinho em uma grande mansão e com quem ele se encontrou apenas 6 vezes, no ato da encomenda e no ato do pagamento após o término de cada pintura (todas elas no estilo gótico)... Klaus não sabia se era por uma falha no sistema de aquecimento da casa, mas todas as vezes em que se encontrou com o homem (todas elas após o sol se por), ele sentia ondas de frio eriçarem os pelos de seus braços.

Neste novo encontro Klaus percebeu algo ainda mais diferente do que o estranho frio que parecia acompanhar o dono da mansão pra onde quer que ele fosse, pois enquanto discutiam sobre a próxima pintura o homem chacoalhou uma pequena sineta fazendo surgir uma jovem empregada que entrou por uma das portas laterais da biblioteca em que estavam. Era uma jovem de uma beleza rude como a comum entre as mulheres da plebe, deveria ter algo entre 16 e 20 anos, mas não era sua figura que despertou a atenção e sim os olhos dela, pareciam olhos sonolentos, mas despertos, olhos que enxergavam o vazio e iam além do horizonte. A um comando gestual a jovem ajoelhou-se ao lado da poltrona de seu empregador e ele pousou a mão sobre os cabeços castanhos dela, alisando-os esporadicamente enquanto continuava a conversar com Klaus que observava aquela cena fascinado pela forma com que a mulher parecia não se importar com o que estava fazendo e pelo homem que não via naquele ato absolutamente nada de incomum, e se via, dava a impressão de não notar.

Eles trataram da temática da obra, das dimensões e do prazo quando o homem retirou uma faca do bolso de seu casaco e a entregou para a garota semi acordada que pegou a lâmina e silenciosamente usou o fio para abrir um corte pequeno em seu antebraço, apenas o suficiente para fazer um filete de sangue escorrer pra fora da pele. Klaus estava ao mesmo tempo intrigado, preocupado e admirado com aquilo, com aquele poder que o homem parecia exercer sobre a garota, e em sua mente doentia ele achou cortês quando o estranho ofereceu o braço da jovem para ele, como um homem que convida o outro a dar o primeiro gole em uma bebida.

De maneira surreal a conversa continuou após a breve recusa de Klaus, e os dois acordaram o preço pelos serviços que seriam prestados enquanto o dono da casa bebia o sangue do antebraço da garota em intervalos regulares. Os olhos dele enchiam Klaus de espanto e fascinação, ele era mais do que um empregador para a garota, era seu dono, ela era sua propriedade, e Klaus não duvidou que ela cortaria a própria garganta com a mesma facilidade com que cortou o braço caso ele assim ordenasse. Klaus já havia visto o poder antes, o poder do dinheiro, o poder da força bruta, o poder da chantagem, da paixão e da vilania, mas nunca havia visto nada como aquilo. Naquela noite, após deixar a mansão para trás ele sonhou com aquela garota, no sonho ele era o patrão, e se via mutilando um dos seios dela enquanto ela continuava a servir a mesa de maneira indiferente, e a cada vez que um seio era extirpado outro surgia rapidamente no lugar de forma a permitir uma mutilação infinita. Klaus acordou com as calças grudadas pelo sêmen que jorrou durante o sonho e ressecou sobre sua pele.

Outras visitas à mansão se tornaram inevitáveis, a princípio ele as fazia com a desculpa de tratar sobre o andamento da obra, mas com o tempo elas foram se tornando dispensáveis como se tornam as formalidades quando uma relação esporádica se torna cotidiana. Juntos eles passaram a conversar sobre vários temas como a política, a religião, sobre literatura e até mesmo sobre história, campo que o seu interlocutor parecia dominar de maneira extraordinária, e a cada reunião Klaus ansiava pelo ponto mais alto, sua boca até chegava a secar, todas as vezes que ele via o homem erguer a sineta e a fazia soar, sendo prontamente atendido por uma empregada. Duas ou três vezes ele via a mesma garota, mas não mais do que isso, ele não perguntava ao homem o que havia acontecido com a jovem anterior quando uma nova aparecia, seria o mesmo que perguntar o que era feito dos restos de comida quando o jantar se encerrava.

Por uma vez, Klaus aceitou beber do sangue oferecido, mas não gostou do sabor e ficou satisfeito por ter decidido beber só um gole, pois temia ter vomitado no chão do dono da casa caso houvesse engolido mais do que isso. Mas sentiu-se bastante satisfeito e agradecido quando o homem permitiu que ele administrasse os cortes. A princípio Klaus foi comedido, cortava aqui e acolá com delicadeza e em pequenas extensões, e como quando era criança, foi testando os limites que poderia encontrar, esperando por alguma reprovação ou chamada de atenção que não veio, tudo lhe era permitido, e ele passou a cortar sem cerimônias... e os dois conversavam, mesmo quando ele estava no âmago da destruição, encharcado de sangue e com as mãos cortando gordura, músculos e vísceras. Quando Klaus começava a se masturbar sobre os cadáveres ele as vezes via um sorriso nos lábios de seu amigo, mas não parecia um sorriso de satisfação ou de cumplicidade assassina, era antes o sorriso de um homem que vê a brincadeira de uma criança que se entretém com um brinquedo qualquer, mas incapaz de lembrar-se verdadeiramente de como era aquele sentimento.

Klaus contou seus segredos para o homem, ou o homem revelou que os conhecia primeiro? Era difícil lembrar, pois tudo aconteceu tão naturalmente quanto uma conversa sobre o clima ou sobre a política. O fascínio de Klaus era tão grande, seu êxtase era tão completo que perguntas se tornaram irrelevantes. Ele parou de pensar em como além do frio o ambiente da casa parecia fétido na presença do dono da casa, talvez em dado momento sua mente tenha lhe dito que aquilo deveria ser assim em função do cheiro de sangue e carne derramados e cortados, e a certa altura ele havia atingido o estágio da acomodação sensorial, habituando-se a ele. Mas a acomodação não explicava o motivo dele não ter visto o rosto de seu cliente até hoje, apenas fragmentos, e apenas na penumbra. Nenhum dos dois falavam sobre isso, mas havia entre eles um acordo silencioso sobre o caso.

Klaus só viu completamente revelado o rosto de seu cliente após ter respondido “sim” a uma pergunta específica que ele o fez.

- Você quer ter este poder, Klaus?

- Sim! Sim, por favor, SIM!

- Vejo que cumpriu sua parte, veio receber sua recompensa? – pergunta Kerberus, envolto nas sombras, longe do olhar de Jessica, sua voz ecoando pelos túneis enquanto uma faca dança em sua mão e ele observa a ironia do formato do cabo esculpido em forma de cabeça de cavalo e recorda-se do seu velho pai Joseph Reinhardt.
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Re: Rede de Túneis

Mensagem por Jessica Red em Sex 28 Abr - 13:12



- Vejo que cumpriu sua parte, veio receber sua recompensa?

Ao ouvir a frase ressoar, Jessica estanca seus passos e fica imóvel tentando inutilmente localizar o som. Ela olha tudo em volta, o túnel mal iluminado não dá margem a nenhuma visualização da figura que lembrava da floresta, mas só o vampiro saberia do acordo... Ou não?

A freqüência cardíaca da ruiva aumenta drasticamente, começa a sentir a falta de ar nos pulmões, o suor pontua sua testa, sente-se um pouco tonta e estica a mãos para a parede mais próxima buscando apoio. A ânsia de vomito domina quando ela sente algo grudento embaixo da mão. Tosse e puxa o ar mais rapidamente. Uma dor aguda no peito e o medo de morrer, percorrem a sua espinha.

Será que era realmente o vampiro com o qual tinha encontrado na floresta? Ou seria uma emboscada? E de quem seria? Podia muito bem ser uma emboscada pelo vampiro.

Ela sente o seu coração descompassado, ao lembrar do êxtase da mordida... A adrenalina percorre suas veias e o medo é parcialmente reprimido pela ansiedade de sentir novamente. O seu cérebro só consegue raciocinar: “mais uma dose”.

- É vc... Ela engasga com a boca seca. E sem ter como chamá-lo, sem um nome, sem uma definição melhor ela continua. - O vampiro da floresta?

Olha mais uma vez para todos os lados e dá um passo vacilante para frente seguindo o caminho com uma das mãos apoiando na parede.

- Você sabe... não precisa me matar... eu fiz o que você mandou... Porque você queria o seu sangue unido ao sangue do Mad Dog?
Esse pensamento a fez tremer, será que o Mad saberia agora que ela tinha feito de propósito? E agora não tinha mais serventia para o vampiro?

- Não contei nada, pra ninguém... e não vou fazer... prometo! Eu nem mesmo sei o seu nome... ou como se parece...

Ela balbucia tentando barganhar pela sua vida, já que o local onde se encontra é perfeito para desova e o individuo era algo que já estava morto e se alimentava de sangue. Tentando achar uma maneira de deixá-la viva, como da outra vez.

- Eu contei tudo que sabia antes... Lembra?  Do lobo enorme e os vampiros? Ela sente seu coração bombear rápido, e os vasos dilatando a fazem sentir melhor, raciocinar melhor.

- Sabe o que aconteceu depois do nosso encontro na floresta? Se ele soubesse do ocorrido, ela estaria perdida, mas tinha que arriscar.
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RPG
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