Utopia

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Utopia

Mensagem por Convidado em Ter 10 Jul - 22:09

Vampiro: A Máscara


Fanfiction: Utopia.
Por: Carolina Schimidt.


_____________**_____________**_____________


Prólogo

Durante toda a minha vida, sempre pensei que se algo realmente desse certo, os fatos definitivamente não estariam seguindo seu fluxo natural. Apesar de todos os apesares, nunca desisti totalmente de ir em frente. Ou ao menos, tentar.

Minha vida não era das piores, mas sem qualquer sombra de dúvidas, não era nada feliz, aliás, se houvesse alguém no mundo em apuros piores do que os meus, esse indivíduo deveria ser alguém muito ferrado... Tão ferrado que, se por ventura eu o conhecesse, o aconselharia suicídio.

Talvez tudo conspirasse contra mim, talvez... Eu fora apenas um “produto” do acaso. Um alguém que simplesmente nasceu com o dever de interpretar um imã. Sim, sim... Aquelas coisas escrotas que tracionam outros objetos de metal. Só que no meu caso, ao invés de metais, eu atraia para mim todo e qualquer tipo de azar que uma pessoa seja capaz de imaginar, e quando falo sobre isso... Não. Não estou sendo dramática, quanto menos exagerada.

Cresci sem conhecer qualquer membro de minha verdadeira família - com exceção de meu irmão cinco anos mais velho, Thomas -, porque os da postiça estavam longe de merecer ser chamados de tal forma. Aquilo não era família, quem sabe um covil de serpentes. Não, isso ainda era elogio. Enfim, fui descobrir todo o resto de minha vida – da qual eu mesma não participei – através de uma prima que eu nem imaginava existir. A pequena e frágil Heike, uma garota doce e sempre tão amorosa e simpática com todos a sua volta. Corrigindo: com todos que a aceitavam. Descobrirão sobre isso no decorrer da história.

Bem, mesmo com todas aquelas ondas de desgraça, muitas coisas valeram a pena durante todo o período de minha vida/não vida. Conheci muitas pessoas pelas quais lutar não fora algo em vão, pelas quais demonstrar o que achava de mais lamentável no universo – as fraquezas – não fora de fato tão ruim quanto deveria ter sido. Pessoas que, mesmo não sentindo por mim algo cem por cento concreto e confiável, se mantiveram ao meu lado até o fim – mesmo que fosse o fim delas -, e que me deram um ombro amigo para “chorar” nos momentos em que mais me encontrava desesperada.

Era uma pessoa cercada de acontecimentos. Bons e ruins. Sendo dez por cento bons e noventa por cento ruins. Ok, ok, talvez... Mesmo com tantas tristezas, não a muito do que reclamar e, certamente, a palavra desistir não estava inclusa em meu dicionário. Poderia passar por inúmeras situações, mas havia apenas uma, uma ÚNICA em meio a todas elas que seria capaz de me fazer jogar os panos. Eu a costumava chamar de Cinco Faces. Está bem... Eis aí outro detalhe que vocês somente entenderão ao decorrer da história.

Mesmo passando por tudo de pior que uma pessoa normal – eu nunca fora normal mesmo - possa aguentar, em alguns momentos de minha existência fui capaz de dar de cara com a felicidade, mesmo que por pouquíssimo tempo, claro. Mas não foi a duração de tais eventos que me fizeram recordá-los até o dia de minha morte, e sim, o grau de importância que cada um deles deixara marcado em minhas memórias.

Ah! E antes de tudo, eu era a garota de um metro e sessenta e oito, olhos verdes e cabelos tingidos de azul, que não curtia brincar de Barbie, mas que era muito chegada em uma briguinha com armas brancas. Meu nome era Samantha, Samantha Addams Schimidt.

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Re: Utopia

Mensagem por Convidado em Qua 11 Jul - 22:24

Capítulo 1: Fragmentos de uma Infância Perdida


Como sabem todas as pessoas dotadas do mínimo de inteligência, não conseguimos nos lembrar de exatamente todos os fatos que nos cercavam quando crianças. Apenas somos capazes de nos recordar, mesmo que de maneira muito superficial, sobre acontecimentos que mais nos tiveram importância, sendo eles bons ou ruins.

Minha infância – mesmo eu me recordando de apenas dois fatos – não fora nada interessante. Mesmo quando perguntava ao Thomas, ele sempre me dizia as mesmas coisas chatas. Viu só? Prova de que minha – se é que posso chamar isso de vida – vida sempre fora monótona. Sem sal e sem açúcar, mas... Vamos lá.

Quando era apenas um bebê recém-nascido e meu irmão uma criança de cinco anos, fomos abandonados à porta de um orfanato de freiras – e não é por nada não, mas eu as odeio do fundo de minha alma – onde vivemos durante três longos e intermináveis anos.

Aquelas velhinhas vestidas com túnicas imensas e esquisitas que cobriam até o dedão do pé, eram tão gentis quanto o Hulk ensinando uma lição a Loki em uma das cenas de Os Vingadores, e foi exatamente toda essa “bondade” que fizera com que uma lembrança terrível ficasse cravada em minhas memórias de criança.

Uma vez, quando meu irmão começou a fazer “gracinhas” em meio a uma maldita missa, uma das freiras o retirou da capela fazendo questão de me levar junto deles... Eu tinha... Aproximadamente dois anos, ainda estava tomando o jeito da caminhada, movendo um pé após o outro de forma plenamente desengonçada. A criatura do demônio nos conduziu até uma pequena sala mal iluminada no interior do orfanato. Sim, aquela era a salinha do castigo e... Quem disse que ficar ajoelhado sobre os grãos de milho era punição suficiente? Como se fosse pouca coisa, no momento em que os joelhos do pobre Thomas – que na época estava próximo aos seus sete anos - começaram a sangrar, com um chicote de couro, colocou-se a chicotear as suas costas desnudas, até que formassem vergões, até que deles começasse a escorrer sangue. Ora, teria forma mais bonita de se mostrar fiel Deus?! Com certeza não.

Era pequena de mais, não podia fazer nada, não era capaz de qualquer atitude. Minha única reação foi me encostar a uma das paredes e soltar minhas lágrimas de forma desesperada, mas enquanto isso acontecia, Thomas se voltava para mim com seus olhos cheios de água, que transmitiam dor e sofrimento, dizendo que tudo daria certo e que eu não precisava ficar triste. Aquela foi uma das maiores provas de amor que fizera por mim até o seu último dia de vida. Ele é quem estava sofrendo. Eu o deveria estar acalmando.

A segunda lembrança fora sobre nossa adoção. Mandando uma real aqui: preferia ter ficado com as freiras, apanhando feito condenada.

O casal que nos adotou eram pessoas ricas, porém, pouco conhecidas na redondeza. Residiam em uma cidade ao lado, chamada Frankfurt. Vou mencioná-los como ELA e ELE. Não suporto ter que dizer ou mesmo pensar em seus nomes. Dois grandes psicopatas! Essa palavra sim os definia muito bem.

Thomas sempre foi o que recebia os melhores tratos da parte d’ela, não que a vadiazinha me detestasse, mas seus modos carinhosos para comigo se acabaram quando me tornei mocinha aos nove anos, mocinha daquela forma... Como deveria acontecer com todas as mulheres. Um tanto cedo, admito, porém a menstruarão precoce me fizera ganhar mais corpo do que muitas garotas por aí. Aos onze anos de idade, eu já era praticamente um mulherão. Claro que ainda me faltava algumas coisas, tipo... Maturidade o suficiente, obvio, para me tornar uma pessoa mais completa e totalmente crescida, em todos os aspectos.

Estava beirando meus doze anos quando tudo aconteceu. Algo que modificou minha vida por completo, mudando-a da água para o vinho, arrancando de mim de forma violenta toda a pureza e inocência que uma criança possui. Ainda estava vivendo a minha fase de brincar com bonecas e fazer a hora do chá exatamente às cinco da tarde. E naquela tarde em específico, eu não tive a minha hora do chá, e a partir daquele dia, nunca mais teria.

- Samantha! Sammy, querida. Venha até aqui.

A voz d’ele ecoava pelos corredores da casa “vazia”. Ela e Thomas haviam saído para fazer as compras do mês, quanto a mim, fiquei ali quieta em meu quarto cor de rosa brincando com minhas bonecas de porcelana.

- Sim pai! Estou indo.

Me levantei do chão largando as bonecas por ali, todas espalhadas sobre o tapete felpudo. Caminhei em direção ao seu escritório, de onde vinha sua voz e, quando adentrei o recinto não avistei em que local o homem se encontrava. O ambiente estava mal iluminado, o que dificultava minha visão. Mas não demorou muito tempo para que eu escutasse a porta se bater bem as minhas costas. Quando me voltei para trás, me deparei com ele, completamente desnudo, dirigindo a mim um olhar plenamente malicioso e doentio.

Ele me segurou pelo pescoço a fim de me imobilizar. Enquanto eu berrava, chorava e esperneava com o intuito de conseguir me soltar, o homem usava de diversas “táticas” para evitar que eu conseguisse algo do tipo. Mesmo não desistindo com facilidade, a força de uma criança de onze a doze anos, não se compara a força de um adulto de quase quarenta. Não consegui me libertar de suas garras, de suas segundas e perversas intenções com relação a mim.

O mostro, sem qualquer sentimento de pudor, arrancou de meu corpo toda a minha roupa, de uma forma bruta e desumana. Em seguida, tratou de finalizar o seu trabalho sujo.

Quando o verme se cansou, abrindo a porta para que eu pudesse sair, corri sem pensar duas vezes em direção ao meu quarto, trancando todas as portas possíveis e, em seguida, me enfiando embaixo de meu chuveiro e tomando um longo de um banho para tentar me livrar daquele péssimo sentimento de impureza. Apesar das horas gasta submersa a água, as cenas me eram perfeitamente nítidas, como se tudo estivesse acontecendo naquele exato momento. Não conseguia conter meu choro. Eram lágrimas de dor, de vergonha, de ódio... A partir daquele momento, o desejo de que aquele infeliz morresse se tornara prioridade em minha vida.

Quando já estava vestida novamente, com roupas limpas e aconchegantes, me sentei no pequeno sofá encostado na parede abaixo da janela, que costumava passar lendo em minhas horas vagas, observando o dia nublado e as gotas de chuva que caiam sem sessar, assim como minhas lágrimas.

Naquela tarde, às cinco horas, ao invés de fazer minha ‘hora do chá’, abraçada aos meus próprios joelhos, jurei a mim mesma que nunca mais seria fraca. Que nunca mais seria uma ingênua, simples e qualquer garotinha.

A partir daquele dia, passei a me rebelar contra aqueles monstros de forma que ninguém daquela casa entendia, exceto o filho de uma pu-... Ele. Mas como era de se esperar, nenhum de nós dois ousou pronunciar sobre o acontecido, deixando o ocorrido de lado e continuando com nossas vidinhas medíocres de “família feliz”. O único que continuei tratando de forma amável, pois sempre fizera mais do que merecer, era Thomas. Meu lindo e inseparável irmão. Minha única e verdadeira família.

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Re: Utopia

Mensagem por Convidado em Qui 12 Jul - 18:23

Capítulo 2: A queda do segredo

Minha rebeldia estava apenas começando, aquilo não era nada comparado ao que eu faria anos depois.

Quando completei quinze anos de idade, Thomas estava procurando algum lugar para morar, pois ele mesmo já não estava aguentando ficar naquela mansão, onde ele e ela discutiam praticamente o dia todo, por qualquer motivo idiota e sem sentido, o que altamente contribuiu para todo aquele meu comportamento insano.

Meu irmão também havia mudado bastante em meio aquele período. Sua vida dali em diante se resumia em trabalho e motoclube, evitava ao máximo permanecer dentro de casa. Eu já suspeitava que ele desconfiasse de algo, mas preferi não tocar no assunto para evitar constrangimento de ambas às partes. Tinha deixado o cabelo crescer, era lindo, negro e levemente ondulado. Destacava bastante sobre sua pele branquinha, e realçava ainda mais os seus olhos verdes. Aquele cara era como se fosse um deus para mim. Era absolutamente TUDO o que eu tinha na vida.

Voltando a minha rebeldia... Bem, aos quinze anos havia descoberto sobre minha versátil opção sexual. Gostava tanto de mulheres quanto de homens, sim... Mulheres eram sexys. Mas esse não era o problema. O grande X da questão estava na maneira em como eu agia, a forma que me comportava na maior parte do tempo. Tanto em casa quanto em relação a outras pessoas, mas o que mais estava preocupando meu irmão era o que eu estava fazendo a mim mesma, me estragando sem dó nem piedade, simplesmente acabando com a minha vida ainda naquela idade.

Além de sair com homens e mulheres ao mesmo tempo, estava me viciando em álcool, cocaína e drogas injetáveis. Thomas ficava maluco, quase subia pelas paredes, quando me via chegar a nossa suposta casa naqueles estados, me apoiando as paredes a fim de encontrar apoio para manter o equilíbrio. Às vezes chegava a vomitar tudo o que havia ingerido, e os hematomas pelos braços e pernas, por aplicar a droga de forma inadequada, eram extremamente visíveis a qualquer pessoa.

- Sammy...

Um dia resmungou meu nome ao me observar entrando pela porta da frente, toda ferrada e quase caindo pelo chão. Ele estava bem nervoso e irritado, pelo que podia me lembrar. Sua voz demonstrava toda a decepção e tristeza que sentia em relação a mim. E me doeu. Doeu profundamente, mas nada fiz quanto aquilo, estava totalmente impossibilitada naquele momento, até mesmo de raciocinar, quanto mais de agir.

- Vem aqui, menina.

Desceu a escadaria tão rapidamente que nem havia percebido – também, minha visão estava mais embaçada do que quando se está em meio a um nevoeiro – me pegando no colo com a intenção de me carregar até meu quarto. Quando adentrou o cômodo, me levou até o banheiro, girou o registro da torneira da banheira, retirando de mim toda aquela roupa suja e rasgada e me colocou no interior da mesma. Sim, meu irmão já me viu nua e me deu um banho. Dane-se, para mim Thomas era a pessoa mais confiável do mundo.

- O que você está fazendo contigo?! Por quê?!

Dizia enquanto me ajudava com o sabão. Minha situação era tão lamentável, que ao menos conseguia segurar um sabonete sem ajuda.

Enquanto Thomas não se conformava com minhas atitudes, e continuava a reclamar e a me ajudar, eu apenas me dava o trabalho de escutar tudo, pois estava tão cansada ao ponto de evitar conversar. Cansada e triste, para ser mais específica.

Deitada sobre a cama, limpa e de pijamas, meu irmão se sentou a beira da mesma, passando a mão em meus cabelos enquanto olhava para mim. Ele parecia triste e muito nervoso ao mesmo tempo. Do modo como conhecia Thomas, ele não deixaria aquela situação prosseguir de tal forma.

No dia seguinte, ao abrir os olhos e me deparar com a luz dos raios solares e com ela de pé aos pés da minha cama, uma enorme dor de cabeça me nocauteou de jeito.

- Pode tratando de falar, sua vadiazinha!

Então, após pronunciar aquela frase sem sentido, correu até a cabeceira da cama, me levantando pelos cabelos. Garanto a vocês que não há no mundo, forma mais gentil e carinhosa de se acordar uma pessoa alheia.

- O que você está fazendo?! Sua retardada!

Esbravejei em sua direção enquanto tentava desgrudar suas mãos do topo de meu coro cabeludo. Literalmente, aquele casal que nos havia adotado, era um par de desequilibrados. Isso se notava de longe.

- Me conte, sua biscate! Me conte o que você fez com ele? O que fez com o meu marido?! Sua puta!

Ela gritava descontroladamente, para que a casa inteira, ou até mesmo a vizinhança pudesse escutar. Berrava a plenos pulmões, cheia de ódio e repulsa.

- Eu não fiz absolutamente nada! Ele me fez! Ele me fez ficar assim, o seu maridinho desgraçado!

Gritei como resposta, enquanto sentia a dor de cabeça mais a dor de meus cabelos sendo puxados para cima.

- Sua mentirosa...!

Sem qualquer sinal de remorso ou compaixão, ela preparou sua mão livre pelos ares e a desceu em rápida velocidade, mirando em direção ao meu rosto. O estalo do tapa foi absurdo e a dor, ainda pior. Mas minha sorte foi que naquele exato momento, Thomas correu até meu quarto para saber qual o motivo de toda aquela gritaria.

- Ahhhh...! Fique longe dela! LONGE!

Gritou ao ver que a mulher segurava em meus cabelos, e ao notar o vermelhão que aquela vaca havia provocado no lado esquerdo de minha face.

- Você não é a mãe dela! Você não é a minha mãe! Sua desequilibrada! Sai já daqui! SAI AGORA!

Thomas a retirou forçadamente de perto de mim, arrastando a mulher para fora do quarto e em seguida, trancou a porta para que ninguém mais pudesse sair ou entrar. A retardada ficou do lado de fora socando a porta e fazendo ceninha, dizendo que éramos ingratos por tudo de bom que havia feito por nós. Ah, sim, oferecer um lar onde vive um estuprador de garotinhas indefesas é algo de muito bom a se oferecer.

Estava encolhida perto da cama, feito um gatinho assustado, e Thomas encostado na parede de frente para mim com os braços cruzados. Eu tentava evitar olhar em sua direção, pois estava com muito medo, vergonha e sei lá mais o que.

- Samantha. Sente em sua cama, agora.

Ordenou de forma seca e com total seriedade.

- Por favor, me deixe sair...

Sussurrei para que somente ele escutasse.

- Você não vai sair, da porra desse quarto, até me contar tudo o que está acontecendo! Senta na cama AGORA!

Aquela foi a primeira e única vez em que senti um medo absurdo de meu irmão, mas ele fez tudo àquilo para me ajudar. Thomas só queria o meu bem e nada a menos.

Não pude fazer nada, a não ser sentar em minha cama e contar tudo o que havia acontecido a ele, em meio a soluços, mas contei. Thomas acreditou em mim pelo fato de estar observando o modo com que aquele velho nojento me olhava, como se eu fosse uma pizza de calabresa e ele quisesse me comer.

No final das contas ele me abraçou dizendo que me tiraria daquele lugar. A onda de alívio que me tomou naquele instante foi imensa. Contar tudo para ela foi como se tivesse desentalado um caroço de minha garganta, que me impedia de respirar e de tentar ser feliz.

Naquele mesmo dia, eu e Thomas nos mudamos para uma das pequenas casas que havia nos fundos do motoclube. Elas estavam ali para dar uma força aos membros que precisassem. Eram pequenas, porém muito aconchegantes, e o mais importante de tudo... Faziam com que eu me sentisse em casa. Cada uma possuía dois quartos, uma cozinha e um banheiro. O suficiente para duas pessoas que não se importavam com o luxo.

Nós dois também mudamos nossos sobrenomes de volta aos originais, ‘Addams Schimidt’, pois apesar de nossos verdadeiros pais nos terem abandonado, deixando em minha cesta apenas uma carta informando nossos nomes e pedindo para que não os procurassem mais, carregar o nome da família biológica valia muito mais do que carregar o nome de uma que só havia nos feito sofrer.
A partir daquele dia, a vida seria outra. Aquele motoclube seria o ponto de recomeço e era exatamente disso que eu precisava. Recomeçar do zero.

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Re: Utopia

Mensagem por Convidado em Qui 12 Jul - 21:40

Capítulo 3: Paz, paz e paz. Ela não dura para sempre.


Três dias após a nossa mudança, Thomas já havia me matriculado em uma escola pública bem próxima dali. Ele disse que faria questão de me transformar em uma das melhores alunas da classe, mesmo que eu não quisesse. Não bati de frente com ele, afinal, meu irmão apenas queria que eu fosse alguém na vida, e não aceitava de forma alguma, que uma adolescente de quinze anos se perdesse por completo, sem possuir receber qualquer oportunidade para ser feliz.

O trauma do estupro que havia acontecido na mansão, ainda não estava muito melhor, até porque ele não causara pequenos efeitos colaterais, mas sim, grandes. Aquela atrocidade me fez mudar por completo. Mudou tanto minha mentalidade em relação ao mundo quanto minha forma de agir. Mudou o meu modo de enxergar os homens, fato que me fez começar a gostar mais do sexo feminino do que do masculino.

Certo dia, ao me despertar de um sono profundo, de uma noite tranquila e sem perturbação, me levantei me dirigindo ao banheiro - ainda de olhos entreabertos – para realizar as higienes básicas e diárias de um ser humano, em seguida, caminhei até a cozinha e me deparei com o cabeludo fritando uma omelete para o desjejum matinal.

- Bom dia gatinha! Dormiu bem? - perguntou ao escutar o som de uma das cadeiras sendo arrastada por mim, sem se virar para trás, se concentrando para que não deixasse nosso café da manhã queimar.

- Dormi sim... Até de mais... - minha voz era um tanto arrastada e sonolenta. Esfreguei meus olhos com uma das mãos e voltei a observar o que ele estava fazendo. – Thomas, eu sei que tu não cozinha bem. Não precisa se esforçar. – disse a ele de forma zombeteira.

Eu e Thomas nos dávamos super bem. Éramos como unha e carne, apesar de um tirar constantemente com a cara do outro, mas eram brincadeiras respeitosas, que não machucavam os sentimentos de ambas as partes.

- Ah... Pirralha! – arremessou em minha direção um pano de prato que se encontrava úmido, e se colocou a rir da piada. – Tenho uma notícia.

- Tava demoraaaando... – revirei meus olhos com ar de “foi bom enquanto durou”.

- Relaxa, é coisa... Bem, não sei se posso dizer se isso é bom, mas... – o-k. Eu simplesmente detestava quando uma pessoa começava a fazer suspense em relação a qualquer assunto. Olhei para ele de forma impaciente, o que fez com que o rapaz dissesse tudo de uma só vez. – Ok, ok... Você é muito chatonilda, sabia? – sorriu em minha direção após esticar a língua para fora deixando a mostra o seu piercing. – Continuando... O filho da puta foi para o saco preto!

- Quem é que foi para o saco preto?! – arregalando os olhos em sua direção, me coloquei a pensar rapidamente. – Não me diga que...? Sério?!

- Sério! – desligou o fogo, deixando a frigideira com a nossa comida sobre o fogão, em seguida caminhou até a mesa, puxou uma das cadeiras e também se sentou, de forma desleixada, como sempre, de pernas totalmente abertas ocupando todo o espaço possível. – Ele não aguentou a barra. Dois dias depois da denúncia, quando mandaram um oficial até a mansão para investigar o caso, o cara se borrou de medo e enfartou. Enfarto fulminante, pelo que me disseram na delegacia.

Realmente, eu sabia sobre a denúncia feita pelo meu irmão, até porque no dia da audiência, eu iria depor contra aquele verme maldito, mas... Devo confessar que não esperava qualquer coisa daquele tipo.

- Ah! Isso não é bom... – retorci minha boca em um biquinho enquanto fitava a mesa. – É MARAVILHOSO! - voltei meu olhar ao meu irmão, com um sorriso de ponta a ponta. – Espero do fundo de minha alma, que ele esteja apodrecendo no inferno.

Passado aquele dia, pude encarar a vida com mais tranquilidade. A notícia tinha me trazido felicidade e alívio por saber que eu nunca mais encontraria o maldito, a menos que... Eu fosse para o inferno depois de minha morte, mas prefiro não comentar sobre isso por enquanto, afinal, eu estou morta e, com toda a certeza, não há nada de muito interessante aqui do outro lado.

Antes mesmo de nos mudarmos para o motoclube, meu gosto musical e estilo já eram totalmente voltados para o Metal e Rock’N Roll. Tudo o que fizeram comigo ao chegar por lá, foi ressaltar ainda mais aquelas minhas qualidades e características.

Algumas garotas que trabalhavam por lá como garçonetes – todas muito gostosas, por sinal – me ajudaram a dar um toque a mais em meu visual, pintando meus cabelos de azul escuro – porque azul se tornou minha cor favorita a partir dos doze treze anos -, colocando um piercing no centro de meu lábio inferior e um na lateral esquerda de meu nariz. De início estava um tanto preocupada quanto aos trecos penduricados não cair bem, mas depois que os colocaram, achei que combinaram bastante com o formato do meu rosto e o cabelo... Achei o máximo por ter certo destaque quando caia sobre minha pele branquinha, e por ter avivado ainda mais a cor dos meus olhos. Ficou bem melhor do que aquele castanho claro natural, que me fazia parecer ainda mais translucida do que o normal.

Thomas tirou com a minha cara durante um longo tempo, dizendo que eu estava me parecendo com uma arara-azul. Não me importava com aquilo, aliás, foi apenas questão de tempo até que aquele mané se acostumasse com a nova cor do meu cabelo. Após alguns dias, ele já voltara a dizer que eu era a garota mais linda do mundo. Alguns homens têm sérios problemas de visão, fato.

Eu estava me dando muito bem na escola, apesar de ser tachada como antissocial e “a esquisitona” por quase todo o corpo discente. Os que não faziam gracinha, nem se quer se preocupavam em me cumprimentar com um ‘bom dia’, simplesmente passavam reto, mesmo que eu o fizesse, mas aquilo era o de menos. Meus professores de Alemão amavam ler os textos que costumava escrever. Eles abordavam um dos temas mais polêmicos existentes no planeta: política, desigualdade social e maus tratos aos animais. Sim, eu realmente era boa quando se tratava de dissertações.

Quanto a emprego, nos meus finais de semana, costumava trabalhar como garçonete, junto das garotas do motoclube, que haviam se tornado para mim, boas companheiras. Eu até costumava dar uns pegas em uma delas.


Passei a frequentar grupos de narcóticos anônimos, a fim de me tornar independente das drogas que costumava utilizar. Foi um período de muito difícil e sofrido, mas com muita garra, força de vontade e apoio do meu irmão, consegui sair daquela barra antes que não houvesse mais tempo, antes que me encontrasse totalmente destruída por elas. Foi apenas questão de alguns meses, afinal, não fazia tanto tempo assim que eu havia começado a usá-las.

Tudo corria muito bem por lá. Eu estudava, tirava boas notas, possuía um emprego no motoclube, meu irmão também, só que em seu caso, consertava e personalizavas as motos dos integrantes, tínhamos Rock’N Roll até escorrer pelos ouvidos... O que mais poderíamos querer?! Era tudo tão perfeito!... E era exatamente aquilo que me causava grandes preocupações. Tudo estava perfeito de mais.


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Re: Utopia

Mensagem por Convidado em Qua 18 Jul - 22:27

Capítulo 4: Um pouco de sorte não mata ninguém. Certo?



Havia se passado cinco meses após a nossa mudança e, muitas coisas boas estavam acontecendo para mim, o que não deixava de ser um milagre. Eu já estava quase dobrando meus joelhos no chão e agradecendo a Deus. Não... Agora foi exagero!

- Hei, Sammy. – Thomas estava sentado em uma das cadeiras próximas ao balcão do bar, junto de um de seus amigos que eu ainda não conhecia. Ao se virar para trás, me chamou ao me avistar jogando sinuca com alguns velhotes de lá, então, fiz um sinal com a mão para que ele esperasse a minha jogada.

Eu gostava de sinuca. Não era mestre, porém me divertia bastante. Os caras do motoclube viviam me ensinando alguns truques, o que colaborou muito com a qualidade de minhas jogadas. Me inclinei cuidadosamente sobre a mesa, mirando a bolinha com o taco bem encaixado entre as mãos, mantendo apenas um dos olhos abertos. Cuidadosamente, a empurrei com o taco, pois já se encontrava próxima a uma das caçapas. Ah, sim! Ponto na certa! Ao atingir a bolinha preta de número oito, a bola branca fez com que a mesma rolasse buraco abaixo.

- Issaê menina Sam! Mandô bem! – meu parceiro de jogo me cumprimentou com um toque de mãos.

Após aquela jogada, me dirigi até meu irmão a fim de atender seu chamado.

- Essa é a minha irmã pirralha. – me apresentou ao seu amigo. – Sammy, esse é o Rob. Nosso tecladista.

- E aí Rob? – o cumprimentei com um sorriso e um aperto de mãos. – Tudo bem cont-... Tecladista? Nosso tecladista? – ressaltei a palavra ‘nosso’ me voltando rapidamente para meu irmão.

- Sim. – sorriu. A expressão que sempre fazia quando estava aprontando, surgiu em sua face naquele exato momento. – É que esses dias, sabe... – pronto. E ele começo novamente com seu suspense que eu simplesmente amava. – Sem querer... Foi sem querer mesmo! Cheguei em casa e te escutei cantando uma música do Queen. Eu não quis me mostrar para você se não pararia de cantar. Fiquei atrás da porta escutando. Você canta muito bem Sammy! Não podemos desperdiçar esse dom.

Minha cara foi ao chão. Como ele era filho de uma mãe que eu não conhecia, aquele Thom! Ah, sim. A banda seria nossa porque Thomas era um excelente guitarrista. Só havia descoberto quando nos mudamos para o motoclube, pois quando estava na mansão, passava por tantos problemas cujos quais me deixavam completamente alienada ao dia-a-dia. Ele estava me ensinando a tocar. Dizia que eu tinha a ‘pegada’ certa, e que aprenderia rapidamente, mas por aquela eu não esperava.

- M-mas... Thom... – reclamei um tanto nervosa, sem saber se olhava para ele ou para o seu amigo, Rob.

- Relaxa Sam. Quando se acostumar, vai amar subir aos palcos. – Rob tentou me tranquilizar. – Claro... Ninguém vai te forçar a nada. Tu escolhe, menina.

Thomas se voltou para mim com seu maldito olhar suplicante. Eu sempre caia naquela.

Pensei por alguns minutos enquanto fitava o chão, sem saber o que fazer.

- O-k. Vou cantar apenas uma vez. Se Rob gostar, podemos tentar... – baixei meu tom de voz ao dizer a última frase.

Palco era sinônimo de multidão. E não. Eu não gostava de um monte de gente com suas atenções voltadas apenas para mim. Era por esse motivo que eu sempre me recusava a ler meus textos na frente de todos da minha classe.

O resultado do teste foi totalmente o contrário do que eu desejava. Eles gostaram, e muito. Disseram que apenas um pouco de treino me faria virar um ‘Pavarotti’ da vida.

- Tô ferrada. – disse em voz baixa enquanto os dois conversavam empolgados entre si.

A partir daquele dia, os dois passaram a se empenhar na nova prioridade de suas vidas, que costumavam chamar de “Missão Samantha”. Ah, como eu me sentia uma experiência quando me chamavam daquele jeito. Além de melhorar minha voz, estavam em busca de um baterista e um baixista. Aquilo foi coisa simples, depois de um mês, mais ou menos, a banda se encontrava completa, mesmo que eu ainda não conhecesse os outros membros.

Uma das maiores felicidades daqueles dois, foi quando descobriram minha tendência vocal ao Screamo, uma técnica que faz com que a voz saia de forma... Estranha, porém muito legal. Eu realmente gostava de cantar daquela forma, fazia com que eu conseguisse amenizar um pouco de todo aquele meu ódio reprimido.

- Ótimo! – Rob bateu palmas ao dizer, a fim de chamar nossas atenções. Minha e do Thom. – Tive uma ideia! – isso era normal quando se tratava de Rob. Ideias eram o que não faltavam naquela cabecinha ruiva. – Poderíamos fazer um cover de Monochromatic Stains... Nossa Sammy já está bem preparada!

- Ah! Dark Tranquility! – me empolguei. – Fechado!

Já estava tudo certo para tocarmos Dark Tranquility no motoclube dali duas semanas. Sim. Tivemos que ensaiar todos juntos feitos loucos, sem a ausência de qualquer membro da banda. Esse foi mais outro X da questão. Conhecer os outros integrantes. Jack, o baixista e Mark, o incrível, lindo, inteligente e musculoso baterista.

Tinha achado tudo aquilo uma injustiça! Ficava pensando em um modo de manter minha concentração e meu campo de visão afastado do batera quando subisse no palco. Ficava preocupada de não conseguir manter minha atenção no ritmo e letra da música. Apesar de ser homem, Mark havia mexido muito com o meu emocional, e uma vez, até me fez derrubar o microfone em um dos ensaios. Fiquei aliviada por não estarmos no dia da apresentação, mas sim, na garagem de Rob, onde sempre nos encontrávamos para tocar.

- Quer parar de olhar pra minha irmã e tocar a bateria direito, mané! – brincou Thomas com um sorriso de canto, olhando exatamente em direção a Mark, parando repentinamente de tocar sua guitarra.

Gelei. Essa palavra me resumia naquele exato momento.

- E-eu...? Não tô olhando pra Sammy não, cara! – tentou disfarçar utilizando de sua linda voz, que soava um tanto nervosa ao tentar se defender.

- Sei... – meu irmão concordou ironicamente arremessando uma de suas paletas em sua direção.

Depois daquele ocorrido, nosso ultimo ensaio prosseguiu normalmente até chegar ao fim, quando todos abandonaram seus instrumentos e se recolheram para a sala, a fim de assistir um filme e beber umas cervejinhas. Todos, exceto eu. Preferi ficar por ali, isolada como sempre gostei, tocando um pouco de vilão e pensando na vida.

- Er... Desculpe... – aquela voz que me fazia congelar ecoou pela garagem assumindo um tom meio sem graça, me fazendo parar de tocar no mesmo momento em que a escutei. – Não queria atrapalhar...

- T-tudo bem. Não está me atrapalhando. – voltei para ele a minha atenção. Sim, era Mark, com seus longos cabelos castanhos e olhos azuis. Ele me fazia pirar. – Fique a vontade.

- É que eu só fui buscar um copo d’água e eu só queria treinar um pouco mais e... Naquela hora eu não estava olhando você. – desviou seus olhos de mim deixando cair algumas gostas de água do copo.

- Tudo bem... – sorri meio sem jeito. – Thom é muito engraçadinho mesmo...

Então, sem olhar muito para mim, Mark se dirigiu até a bateria, se sentou no banquinho e começou a tocar, sem depositar muita força na hora de tacar as baquetas contra os tambores e pratos, para que o som não fosse muito alto e ecoasse pela casa toda. Assim como ele, me voltei para meu instrumento, continuando a tocá-lo como antes, até chegar a uma parte em que havia emperrado em um acorde, e não conseguia fazê-lo sair nem com reza braba.

- Hmm... Quer ajuda? – Mark sorriu de canto enquanto me observava.

- Também toca violão? – perguntei me voltando para o mesmo.

- Toco sim...

- Ah, então... Por favor... – assenti positivamente.

O rapaz se levantou e caminhou vagarosamente em minha direção, se ajoelhando próximo a mim, de forma que suas pernas se mantivessem um pouco afastadas uma da outra. “Próximo de mais! Próximo de mais!”, pensava o vendo ali, com seus longos cabelos próximos as minhas pernas. Naquele momento, eu me encontrava suando frio e engolindo em seco. Até parecia virgem!

- Primeiro você tem que colocar esse dedo nessa corda... – segurou em minha mão esquerda e a deslizou levemente até o fim do braço do violão. – Agora com essa vos... Você...

A única coisa que me vinha à mente naquele momento era a palavra “fodeu”. Sim, foi bem isso que aconteceu logo em seguida, quando nos viramos para o mesmo lado, no mesmo momento... Quando nossos olhares se encontraram. Meus olhos se mantiveram arregalados e meu corpo, imóvel, sem qualquer sinal de movimento além do realizado pela respiração desregulada. Mark também me fitava engolindo em seco, sem nunca desviar o olhar, então, ele tomou a atitude de se aproximar ainda mais, até que nossos lábios se encontrassem bem próximos. Em seguida... Bem, já devem imaginar. O cara me pegou de jeito, em um beijo surpreendentemente bom, do qual eu não desejava sair tão cedo. Minha mão livre, a direita, logo tinha ido parar na nuca do garoto, puxando-o ainda mais para perto de mim até que...

- AAAAAAAHA! – Thomas entra na garagem com tudo.

- Ele só estava me ensinando um acorde! – respirei fundo ao afastar Mark com a mão, de forma rápida, porém delicada.

- Peguei no pulo do gato! – então, começou a rir fazendo sinal para que os outros dois entrassem. – Pode passar minha grana, Jack. Ganhei a aposta.

Rob e Jack entraram na garagem, segurando latinhas de cerveja, potinhos de amendoim e rindo pra caramba, lógico.

Depois de caçoarem bastante, e depois que eu fiquei puta o suficiente ao descobrir que aqueles três estavam apostando sobre quando nós dois nos daríamos os primeiros pegas, abandonaram a garagem nos deixando por ali, sozinhos e sossegados, jogando um pacote de camisinha e fechando a porta.

- Liga não... – chutei com o pé o pacote de preservativo para baixo de uma banqueta. – Thomas é assim mesmo... – dei de ombros enquanto estampava em minha face um sorrisinho vergonhoso.

Naquele dia, senti vontade de procurar qualquer buraco para enfiar minha cabeça. Ainda bem que por ali não havia espelho algum, assim, evitei olhar meu reflexo e de perceber o quanto estava corada, deixando de ficar ainda mais corada.

Passamos a noite toda conversando, afinal, os “bêbados” haviam descido tanta cachaça a goela abaixo, que se encontravam impossibilitados de dirigir. Foi bom porque nos conhecemos um pouco mais e... Nos beijamos muito mais. Aquilo foi ótimo!

_____________**_____________**_____________

Três semanas se passaram e Mark e eu estávamos mais próximos do que nunca. E sim, já havia rolado sexo. Comigo as coisas eram meio... Rápidas de mais, mas eu não podia evitar. Ele sempre frequentava a minha casa e eu a dele. Havia me apesentado seus pais, o senhor James e a senhora Floor. Ambos eram muito legais, tanto comigo quanto com ele e eu o invejava por isso... Ele tinha sorte de ter tido a oportunidade de conhecer seus pais, e de receber todo aquele carinho que tinham com relação a ele.

Quanto a tudo o que tinha acontecido comigo, preferi não comentar. Pensava que não estávamos no momento adequado para aquilo acontecer, e como havia dito em um dos capítulos anteriores, eu não era de me abrir facilmente com as pessoas e expor meus sentimentos logo de cara.

O dia da nossa primeira apresentação havia chegado. Vestia uma calça leg rasgada nas pernas, um corpete de couro sintético, calçando para acompanhar um coturno de salto plataforma que me fazia parecer alguns centímetros mais alta e um alto rabo de cavalo balançava de um lado para outro enquanto não parava de me mover. Eu estava meio nervosa no momento, até que meu amado se aproximou, deu um beijo em minha testa – seguido de um selinho – e me tranquilizou dizendo que ia correr tudo bem.

Andava freneticamente de um lado para outro, ainda muito ansiosa com aquela aparição para um número suficientemente considerável e preocupante de motociclistas. Respirava fundo fechando os olhos até escutar nossos nomes serem chamados por um de nossos amigos que costumava apresentar as bandas locais.

- O-k, Sammy... É só respirar e deixar o Metal dominar! – falava em voz baixa comigo mesma. – Deixe o Metal dominar! Issaê!

Subimos ao palco e nos posicionamos em nossos respectivos lugares, gesticulando uns para os outros diversos sinais desejando boa sorte. Em seguida, os rapazes deram início à música. Thomas arrasava fazendo seus riffs de guitarra, Rob deslizava seus dedos de forma rápida sobre as teclas do teclado, Jack mandava muito bem no baixo e Mark, socava a bateria de forma bruta, para que o som saísse na medida adequada, até que meu momento de entrar na dança havia chegado.

Ainda de olhos fechados, puxei o máximo de ar para dentro de meus pulmões para que em seguida, pudesse contrair meu diafragma a fim de soltar o gutural de forma correta, como havia aprendido e praticado em todos os ensaios – e durante os banhos. Inclinei meu tronco levemente para frente, soltando todo aquele vozeirão que diziam que eu possuía. Depois de fazer aquilo, apenas prosseguimos com a música, em meio a berros e gritaria da plateia que se mostrava empolgada.

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Re: Utopia

Mensagem por Convidado em Seg 23 Jul - 18:14

Capítulo 5: Sem momentos felizes, por favor.


A apresentação tinha causado grande entusiasmo na galera. Berravam e cantavam junto a mim, acompanhando a letra da música, com seus braços erguidos aos ares fazendo o sinal do Rock’N Roll com as mãos e batendo cabeças a todas as partes, acompanhando o ritmo frenético da canção.

Ao escutar os últimos riffs de guitarra, parei de cantar para dar fim a melodia destrutiva do Metal, olhando todas aquelas pessoas assobiando e nos aplaudindo sem sessar. Era uma sensação muito boa, aquela. Ver todo o público se empolgando e pedindo bis. Bem, para não desanimar a galera, tocamos logo em seguida We Will Rise, da banda Arch Enemy. Foi o momento em que agradeci por termos ensaiado outras musicas além do programado. Assim como antes, todos foram a delírio.

Em seguida, mais três músicas foram apresentadas por nós, todas covers de outras bandas das quais éramos muito fãs. Aquela noite havia sido um sucesso, até mais do que esperávamos. Bem, todos nós ficamos contentes pelo acontecido.

As músicas se acabaram e então, abandonamos o palco após agradecermos o público. Eu ainda tremia feito vara verde, mal estava acreditando no que acabara de fazer, não conseguia discernir se tudo era realidade ou apenas uma alucinação, mas era bom. Bom de mais, até.

- Você mandou muito bem, melhor do que nos ensaios! – Mark se aproximou beijando o alto de minha cabeça. Então, se virou para uma direção onde um grupo de punks conversava e me fitavam. – E agora que está ficando famosa... Vou ter que comprar uma bazuca! – então, ele envolveu minha cintura com os seus braços para passar aos caras, o aviso de que eu já tinha dono. Não pude evitar uma risada por conta de seu gesto.

- Como você é ciumento... – resmunguei deixando em evidência um leve sorriso, enquanto me voltava para ele a fim de olhar seu rosto. – Mas mesmo assim... Eu amo você. Seu lindo! – sorri mostrando todos os dentes.

Mark sorriu de canto e logo em seguida me presenteou com um de seus maravilhosos beijos. Eram, de certo modo, quentes e enlouquecedores. Bem, ele tinha de se curvar um pouco para fazer aquilo, minha altura não ajudava muito. Mas enfim... Isso era irrelevante, exceto pelas frequentes brincadeirinhas de meus companheiros, como por exemplo, levantar o microfone a certa altura para fazer com que eu ficasse dando pulinhos para alcança-los. Eu odiava aquilo, definitivamente.

- Pirraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaalha! – sim. Era a voz da minha “praga”. Thomas veio como um demolidor e me empurrou com tudo, levando a mim e ao Mark de cara no chão.

- Puta que pariu Thomas! Você é muito troll, véi! – gritei em sua direção, tentando reprimir minha risada, mas aquelas tentativas nunca funcionavam.

- HAHAHAHAHA! – começou a gargalhar enquanto estendia as mãos para nos ajudar a levantar. – É meu jeito de dizer o quanto estou orgulhoso! – ele sorriu. – Você cantou muito bem, aliás... – interrompeu sua fala gesticulando para que os outros dois membros da banda se aproximassem. – Todos mandamos muito bem, bando de felas da pota!

- Ihuuuuu! – merecemos encher a cara! – sugeriu Jack.

Aqueles caras cabeludos e barbudos se pareciam com um bando de Vikings a procura da fonte infinita de Hidromel. Eu os amava muito! Eram parte da minha família, tudo o que eu tinha.

- Boa! – sorri após nos levantarmos do chão. – Bora encher a cara! – fiz um gesto com o braço esquerdo em direção ao balcão.

Foi uma boa noite, aquela. Bem agitada, muita bebida e Metal até sair pelos olhos. Eu amava aquele motoclube, não havia melhor lugar no mundo para se morar.

_____________**_____________**_____________

Mais seis meses se passaram, e lá estávamos nós. Meu namoro estava excelente, meu trabalho, nossa banda... Ah, e eu estava compondo novas músicas. Havia descoberto que também era boa naquilo. Além de tudo, Rob estava me dando aulas particulares de Krav Magá. No dia em que descobri que ele lutava, infernizei sua vida ao extremo até que ele topasse me ensinar, afinal, eu também era ótima em encher a paciência alheia. Treinava Parkour todos os dias, pulando feito macaco de um lado para outro, de árvore em árvore, em um bosque que se iniciava nos terrenos do fundo do motoclube. Além de estudar e tocar, também me preocupava muito com o meu físico, então, fazia de tudo para não perder a forma.

- Sam, tu vai se arrebentar bicha maluca! – gritou Jack em um dia qualquer, quando me viu pendurada de cabeça para baixo em um galho de uma árvore alta.

- Vou não!!! – gritei de longe para que ele pudesse me escutar.

Bem, o Parkour eu havia aprendido com uma galerinha da pesada com quem andava. Eles eram mestres em fugir com as “mercadorias”. Tiveram que me ensinar para que eu não ficasse para trás durante as fugas. Aprendi tudo certinho, até de mais.

- Vamos lá, Sammy. – dizia Rob enquanto se preparava para me atacar em um de nossos treinos. – Eu tenho certeza que já está preparada o suficiente para isso. E tente lembra: além de usar os golpes, tente agir com o seu instinto de maloqueira.

- Hei! – reclamei franzindo a testa. – Não sou maloqueira!

- Ah... Tu é sim! – sorriu de forma provocativa.

- Ora, seu barbudo fela da pota! – então, ele utilizou daquele momento em que eu estava com raiva para me atacar e, assim como ele disse, apliquei os golpes enquanto agia por instinto. Um minuto e o cara estava no chão. Tudo era questão de técnica, usar muita força não era necessário.

- Viu?... Au... Como tu consegue, fia? – espatifado no chão, sorria para mim me passando certa confiança.

Os treinos iam muito bem, os ensaios estavam cada vez mais legais e produtivos, estávamos em processo de escolha de um nome para a banda. E sim, estava difícil. A minha vida estava perfeita de mais, tão boa a ponto de me trazer insegurança e temor, mas eu a levaria daquela forma até quando pudesse.

_____________**_____________**_____________

Mais algumas semanas se passaram e decidíamos que tocaríamos novamente no motoclube, só que daquela vez, apresentaríamos músicas de nossa própria autoria.

Thank You Pain foi uma das músicas que mais fez sucesso naquela noite, e realmente, ela era muito boa. A banda, finalmente, tinha sido nomeada - The Tempest. Bom, as letras das músicas, com toda a certeza, deixavam completamente explicita a razão de nossa escolha.

Estava tudo indo muito bem, aquela era a noite do meu aniversário de dezessete anos. Todos estavam felizes com aquilo, inclusive eu. Nunca tinha tido uma festa descente em toda a minha existência, exceto aquela vez, em que enfeitaram todo o motoclube com bexigas pretas e azuis, panos das mesmas cores que se esticavam para todos os lados e um enorme bolo com diversos desenhos de figuras abstratas e morceguinhos feitos de glacê preto e azul. O bolo mais bonito que eu já havia visto! E bem em seu topo, uma miniatura de Harley Davidson com um mini chapéu de bruxa em seu guidão o enfeitava. Estava de mais! Ah, sim... Meu aniversário era no dia 31 de outubro, então, todos estavam fantasiados para o Halloween.

Eu vestia uma fantasia de Valquíria Nórdica. Tá certo que quase não tinha panos naquela roupa e foi uma ideia do pervertido do Mark... Mas ela era bem bonita. Já os rapazes, estavam vestidos de Vikings, claro. Eles estavam muito divertidos com aquelas roupas. Rob, Thom, Jack e Mark estavam arrasando, com seus elmos super fodas sobre as cabeças.

Naquela noite, ganhei muitos presentes, mas o mais legal de todos foi a minha Harley. Meu irmão, Mark e os rapazes da banda combinaram e dividiram o valor entre si. Eles eram os homens da minha vida! Não podia negar! Era linda. Uma Vulcan azul, exatamente do meu gosto. Perfeita de mais. Minha reação ao vê-la... Bem, foi a mais ridícula do mundo. Eu não sabia se sorria, se chorava, se gritava, se corria, se desmaiava. Foi horrível.

- Sammy... – Mark me segurou pela mão e me levou para longe da multidão, em um canto vazio do motoclube, onde pudesse ficar sozinho comigo. Eu não estava entendendo muita coisa, mas enfim, apenas o segui segurando em sua mão.

- Amor...? – eu o observava sem entender muitas coisas. – Está tudo bem com você? – franzi a testa ao perguntar. Olhava em seus olhos e observava suas expressões faciais. Ele me parecia um tanto nervoso. – Olha, muito obrigada pela Harley, eu gostei muito! – sorri em sua direção.

- Ãhn... Fico contente que tenha gostado, mas... Eu tenho outro presente. – por fim, ele se mostrou contente enquanto tateava o bolso traseiro de sua fantasia. – Achei! Hmm... Já vai fazer um ano que estamos juntos e... Sei que pode parecer meio cedo de mais e tal, mas... – então, do interior de um saquinho azul escuro de veludo, amarrado com uma fitinha prateada, retirou uma caixinha de madeira quadrada e então, a abriu utilizando as duas mãos. Aquele momento foi um de muitos em que Mark me fizera sentir paralisada. – Eu amo você, como jamais amei ninguém em toda a minha vida! Quero ficar com você para sempre! Quer se casar comigo?! – seu olhar era sincero e caloroso. Notei seus olhos se enchendo d’água e então, engoli a seco. É claro que eu sabia a resposta, mas era difícil pronunciá-la.


- C-c-claro... Que eu quero! – sorri um tanto nervosa. – Quero, quero! Com certeza! – ergui minha mão um tanto trêmula para acariciar seu rosto. Mark era perfeito! Um homem e tanto! Não por causa de sua vida financeira muito boa, mas perfeito por quem ele costumava ser, por como ele costumava agir, por sua simplicidade... Era incrível!

Tudo o que conseguimos fazer foi nos abraçar. Não sabia descrever aquele momento... Talvez um misto de alegria e nervosismo, até mesmo um pouco de confusão. Na verdade, era daquele modo que Mark conseguia me deixar na maioria das vezes. Eu o amava, amava muito.

O rapaz me afastou delicadamente de seu corpo, tomando minha mão esquerda entre as suas e em seguida, colocou em meu anelar, aquela linda joia de ouro branco com pequenos pingos brilhantes, acompanhando todo o circulo do anel. Eram pedras água marinhas, que brilhavam em um azul intenso.

- Ficou lindo em sua mão... – disse enquanto observava o anel em meu dedo.

Suspirei de felicidade e, sem precisar dizer qualquer palavra, me aproximei novamente e o beijei intensamente, abraçando-o logo em seguida, de forma terna e carinhosa. Por muito tempo eu senti falta daquele abraço. Por muito tempo eu chorei lamentando em tê-lo perdido, me culpando por ter jogado tudo para o alto. Foi difícil superar toda aquela dor da perda, mas como sempre fora forte, não me deixei acabar por minha própria idiotice. Apenas segui em frente.

- Acho melhor voltamos para a festa... Logo vão notar a nossa falta e pensar que estamos fazendo ‘aquilo’ bem agora... – Mark retorceu seus lábios em um bico após proferir suas palavras de forma zombeteira.

- Você é impossível! – dei um tapinha de leve em seu peito.

- Eu seeeei... E é disso que você gosta. – piscou em minha direção me puxando de volta para dentro do bar. Ele só me fazia rir. Era uma criançona de vinte e dois anos.

Dançamos, cantamos e nos divertimos por muito tempo, até que chegou um momento durante a festa, em que Thom resolveu nos apresentar uma nova pessoa...

- Ai, ai... Só quero ver qual é a desse Thom... – Mark sorriu esperando a tal apresentação de braços cruzados. Eu nada falei, apenas o olhei rapidamente com certa preocupação, e voltei minha atenção para nossa frente.

- Um momento de atenção aêh! Bando de felas da pota! – ele sorria enquanto anunciava. Enrosquei meus braços nos de Mark, apenas aguardando a “surpresa” com ansiedade. – Quero apresentar a vocês uma pessoa muito importante para mim! Minha namorada... A Meg! – de trás de uma pilastra, surgiu uma mulher loira de cabelos longos e olhos intensamente azuis, tão azuis que se notava de longe. Eram belos olhos. Eu a fitei por alguns segundos e, era uma linda jovem. – Estamos juntos há um tempo, e achei que estava na hora de nos assumir a todos. E principalmente para você, Sammy... – se voltou para mim. Sorri forçadamente de canto. Eu não sabia quem era ela, mas quem quer que fosse já não havia gostado. Mal chegara entre nós e já estava causando discórdias.


“Como pode fazer com que ele escondesse isso de mim, vadia?!”, pensava enquanto a encarava com o sorrisinho forçado. Aquela garota me olhava de um modo diferente, que me causava arrepios e desconforto. Ela era astuta. E no final de tudo, ainda teve a audácia de acenar em minha direção. Meg... Eu nunca me esqueceria daquela vaca.

- Espero que vocês possam ser amigas. Afinal, vamos nos casar! – meu irmão sorriu em meio ao grande silêncio repentino do motoclube.

_____________**_____________**_____________

- Casar?! – gritava enquanto entrava em nossa casa. – Como pode esconder isso de mim?! Sem mais segredos! Lembra?! – joguei minha bolsa sobre a cama.

- Sammy... Espere aí...! – Thomas me seguia rapidamente. – Eu não quis esconder de você, só pensei que seria melhor esperar um pouco!

- Esperar?!!! – me virei furiosa em sua direção. – Vai se ferrar, Thomas!!! Vai se ferrar, tá legal?!!

Eu não estava na pele dele, não podia sentir o que aquelas palavras causaram em seu interior, mas apenas pelo seu olhar, pude perceber o quanto o havia machucado. Eu não estava me importando muito, porque ao meu ponto de vista, ele era quem havia machucado alguém por ali, e esse alguém era eu, sua irmã mais nova.

- Me deixe sozinha! Sai do meu quarto! – abri a porta enquanto indicava a saída com a mão. – Você conseguiu estragar a noite!

Thomas saiu do cômodo um tanto cabisbaixo. Pude ver Mark adentrando a casa e dando uns tapinhas de amigo em seu ombros, e depois de cochichar algumas coisas cujas quais não fui capaz de escutar, se dirigiu até meu quarto e fechou a porta.

Me joguei sobre a cama e me virei para a parede, abracei o travesseiro e enterrei o meu rosto no mesmo para abafar o som do choro.

- Sammy... – pude sentir o colchão se afundando levemente. Mark sentara na beira da cama a fim de conversar comigo, mas eu não estava boa para falar naquele momento. – Descanse um pouco, tá? Vamos conversar mais tarde... – passava a mão sobre minha cabeça alisando meus cabelos. – Posso te fazer companhia? Ou... – antes que ele terminasse sua frase, assenti positivamente para que ele ficasse. Eu precisava de Mark naquele momento. Estava muito mal para ficar sozinha e poderia ter uma recaída, então, achei melhor que alguém ficasse por ali, para certificar de que tudo ficaria bem.

Mark se despiu de toda àquela sua fantasia pesada de Viking, deixando-a largada em um canto do quarto, aos pés da cama, mantendo em seu corpo apenas a calça leve de malha cor caqui. Em seguida, se deitou ao meu lado passando um de seus braços por cima de mim, e me arrastou para perto de si.

- Fique calma... Amanhã é um novo dia... – beijou a parte de trás de minha cabeça e se manteve ali por perto, se encarregando de tentar me tranquilizar e me fazer parar de chorar para que eu pudesse relaxar.

Me lembro muito bem daquela noite, bom... Ela certamente foi um grande marco em minha vida. Não somente pela “surpresa” de Thomas, mas por outro motivo que jamais consegui esquecer, até mesmo depois de minha morte final. De início era algo alegre, que me deixara feliz, mas como tudo que acontecia em minha vida/morte, não acabou de uma boa forma como todos esperavam. E o que não era novidade para mim.



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Re: Utopia

Mensagem por Convidado em Ter 24 Jul - 16:12

Capítulo 6: Bebê a bordo e a bruxa se aproxima.



Demorou por volta de um mês e meio para que eu voltasse a conversar com o meu irmão. Estava chateada de mais até mesmo para dar de cara com ele, por isso, passei toda aquela temporada na casa de Mark. Os pais dele não se incomodavam comigo por lá, afinal, como já havia dito em um dos capítulos anteriores, ambos me tratavam muito bem e conseguiam fazer com que eu me sentisse parte da família. Tudo aquilo me fazia sentir muito bem, eu gostava de ter toda aquela atenção que nunca tivera em minha vida com relação a pais. E o melhor de tudo... Eu estava perto do amor da minha vida. Isso era o que mais me agradava.

- Sammy... Temos que conversar... – Thom se debruçou sobre o balcão, me surpreendendo enquanto tratava de lavar os copos sujos de cerveja e fazer meu trabalho no motoclube.

- Não temos não. – respondi secamente enquanto secava algumas vasilhas.

- Ah, temos sim! – saltou por cima do balcão de madeira e logo se encontrava a minha frente, barrando minha passagem para que eu não pudesse me afastar. – Não podemos ficar assim! Você é a minha irmãzinha...

- Devia ter pensado que eu era antes de mentir para mim... – em um de seus momentos de descuido, me agachei e passai por baixo de suas pernas que se encontravam afastadas umas das outras. Eu era pequena o bastante para conseguir fazer aquilo... Ou eles é que eram altos de mais, tanto faz.

- Então está assim por causa da mentira, e não porque vou me casar? – se virou em minha direção um tanto abismado, me seguindo enquanto eu levava algumas louças para a cozinha.

- Mas é óbvio! Achou que eu estava com ciúmes?! – me agachei e em seguida, tratava de guardar tudo no interior de um armário. – Thom... Se tem uma coisa que eu sempre quis na vida, foi te ver feliz. – me levantei jogando o pano de prato sobre o ombro direito, encarando-o sem desviar minha atenção por qualquer segundo que fosse. – Eu jamais ficaria com ciúmes ou faria algo para atrapalhar tudo isso. Eu só fiquei puta por ter escondido uma coisa tão importante assim de mim! A sua única família! – gesticulava com as mãos enquanto falava. – Eu amo você, maninho... E não quero te ver triste de forma alguma, mas mentiras... Mais mentiras? A minha vida foi uma mentira por muito tempo. Só não quero que as coisas voltem a ser como antes. Eu quero ser feliz e quero que você seja feliz, me entende? – por um momento revirei meus olhos e assumi uma postura cabisbaixa, em seguida, voltei minha atenção a Thomas. – E desculpe por aquele dia... Eu estava totalmente fora do sério...

Thomas parecia não saber o que dizer. Em minha opinião, nele estava desabrochando um leve sentimento de culpa. Seus olhos estavam arregalados e fixos em mim, parecia confuso e sem saber onde buscar as palavras adequadas para lidar com a situação.

- Tá... Tudo bem... Eu errei. Admito. Não precisa se desculpar, eu sou quem devo fazer isso e... – foi aí que ele reparou o anel de ouro branco e pedras azuis em minha mão esquerda. – O que é isso no seu dedo esquerdo? – franziu a testa enquanto observava a joia.

- Meu anel de noivado. – me virei de costas caminhando até o balcão.

- No-noivado? Como assim?! – por um momento, ele pareceu histérico. – Então, me xinga por não ter te contado e você esconde de mim a mesma coisa?!

- Eu não escondi tá legal?! – me virei em sua direção arremessando o pano de prato no chão, demonstrando uma leve pontada de aborrecimento. – Não disse porque estava com raiva de você. E só não percebeu porque não quis.

- Tá legal, Sammy... Olha, não quero mais brigar, certo? Não com você, maninha... – se aproximou de mim, se agachou e pegou o pano de prato caído no chão colocando-o sobre o balcão. – Vamos tentar recomeçar?... Por favor?

No fundo, eu já havia perdoado aquela praga, mas era difícil fazer isso em voz alta. Me sentia, sei lá... Eu odiava momentos de fazer as pazes, aquilo tudo me deixava muito sem jeito, sinceramente eu preferia o silêncio, que já dizia muita coisa por si só. Ficava olhando de um lado para outro sem saber o que responder e quando abria minha boca para começar a falar, notava que as palavras futuramente proferidas não seriam as mais adequadas para a situação.

- O-K... – dei de ombros junto de um suspiro. – Vamos desde o início, certo? Agora me deixe trabalhar. – o afastei delicadamente com minha mão esquerda a fim de abrir caminho para o outro lado do balcão. Foi então, que uma leve vertigem tomou conta de mim. Me apoiei sobre o balcão a fim de me manter equilibrada, abaixei minha cabeça, fechei meus olhos enquanto respirava profundamente repetidas vezes.

- Sammy, você está bem?! – Thomas se aproximou rapidamente, se colocando as minhas costas, para evitar que eu caísse ou algo do tipo. – O eu aconteceu? – com suas mãos, juntou meus cabelos que estavam caídos sobre os ombros e os colocou sobre minhas costas.

- Não foi nada... Só uma tontura... – passei as mãos sobre o rosto como se aquilo fosse me fazer voltar ao normal. – Tenho que voltar ao trabalho maninho. Mais tarde a gente se fala. – dei as costas para ele e me coloquei a caminhar para o outro lado do salão. Algumas mesas por ali se encontravam sujas de farelo de amendoim, e alguém tinha que limpar a bagunça.

_____________**_____________**_____________

Estava precisando relaxar. Mark havia dito que eu poderia usar sua banheira de hidromassagem quando bem entendesse. Bem, aquele era o momento perfeito.

Após adentrar o seu quarto – que ele dizia ser nosso –, caminhei até o banheiro e girei o registro da torneira banheira, a fim de enchê-la de água. Me despi por completo e me enrolei em minha toalha azul escuro. Fui até a porta e a fechei sem me preocupar em tranca-la. Naquela casa, as pessoas tinham respeito e não chegavam abrindo portas sem antes bater e pedir permissão. Em seguida, fui até minha bolsa e retirei de seu interior três testes de farmácia que comprara antes de voltar para a casa.

Havia comprado três para me certificar se o resultado estaria certo. Me lembro que naquele último mês, minha menstruação não descera para mim. Era um bom motivo para desconfiar.

Voltei ao banheiro e tratei de fazer os três assim como explicava as instruções, seguindo passo a passo para não errar em nada. Minhas dúvidas haviam se acabado. Os três testes deram positivo.

- Puta merda... – resmunguei enquanto os deixava sobre a pia do banheiro. – Tenho que falar com Mark sobre iss-...

- Falar o que pra mim?! – ele me interrompeu enquanto entrava no quarto. Bem, ele não precisava bater a porta.

Como de costume, congelei. Ele sempre me pegava de surpresa, e eu sempre pensava que ele tinha de dar um jeito de parar com aquilo.

- Ãhn... Como foi o trabalho? – coloquei meu rosto para fora da porta do banheiro, sorrindo de uma forma nervosa.

- Sammy... Você sabe, nada de mais... – ele me fitava com olhos desconfiados.

- Nenhuma novidade? Nadinha mesmo? – continuava a sorrir daquela forma.

- Sam, eu trabalho com o seu irmão arrumando motos, sabe que não tem muitas coisas a se fazer, além disso... Aliás, seu irmão me disse que estava se sentindo tonta hoje de manhã, está tudo bem? Quer ir ao médico?

- Não, não. Eu estou bem... Hmm...

- Tá certo... – caminhou até sua cama e se sentou na beiradinha dela, enquanto me observava de esguelha, bastante desconfiado. Retirou sua camiseta e a jogou no chão, próxima ao móvel. Ai, ai... Mark era uma visão do paraíso. Eu não conseguia tirar meus olhos daquele homem.

- Vou tomar um banho, estou cansado pra cassete. – se espreguiçou esticando seus braços para o alto.

- Aqui?! No banheiro?! – sacudi a cabeça um tanto confusa, desviando meu olhar dele para me manter concentrada naquilo que importava no momento.

Mark se virou para mim com olhos arregalados e confusos.

- Meu amor, onde mais eu poderia tomar banho? – ele sorriu de canto, se levantou e caminhou em direção ao banheiro. – É sério que você está bem? – franziu as sobrancelhas.

- E-eu...? Estou...? Estou. Estou! – sacudia a cabeça rapidamente de forma positiva. Ele tentava entrar no banheiro e eu o tentava barrar de tudo quanto é forma.

- Sammy... O que está fazendo? – se movia de um lado para outro a fim de se desviar do meu corpo e entrar no banheiro. – O que está...? Está enchendo a banheira? Ui... É surpresa, é? – passou a me fitar de forma pervertida após para de se mover.

- E que surpresa! – sorri de forma sem graça desviando meu olhar daquele ser maravilhosamente e perfeitamente sexy.

Foi quando o filho da mãe se aproveitou de meu momento de distração e rapidamente, adentrou o local me girando delicadamente para o lado oposto de onde estava.

- Ah, não... – bati a mão na testa enquanto fechava meus olhos.

- O que é isso sobre a pia? – ele ficou encarando por alguns segundos antes de se voltar a mim. – São... Testes de gravidez?

Engoli em seco, enquanto o encarava sem saber o que dizer.

- São.

- E são seus? – perguntou esperando que eu respondesse algo de relevante. – Sammy...?

- São, são meus! – me virei de costas caminhando até a cama, onde me joguei com tudo. – Os três, deram resultados positivos. Parabéns papai! – dizia enquanto encarava o teto.

Aquela notícia tinha sido uma bomba para mim. Não sabia como havia sido para Mark, mas o modo como o mesmo reagiu, bem... Dava para notar que estava feliz. Não que eu não estivesse, na verdade, no momento em que descobri a curiosidade, o medo, a alegria, o nervosismo e mais uma onda de sentimentos me inundaram de uma só vez. A ideia era legal, eu não podia negar, mas eu também era muito jovem. Não frequentava igrejas ou coisas do tipo, mas alguns pensamentos que possuía até certo momento da vida, eram bons, e eu não teria coragem, de maneira alguma, de abortar ou qualquer coisa do tipo. Eu faria o que seria o mais correto, e o correto naquele momento era ter o bebê e ser uma boa mãe, independente da situação. Não deixaria meu filho passar pelo mesmo que eu. Isso nunca!

Depois que tomamos banho e descansamos um pouco – até eu parar de sentir enjoo – nos arrumamos e voltamos para o motoclube. Mark queria sair espalhando para todo mundo. Eu estava feita, literalmente.

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- Vou ser titio? – Thomas estava meio surpreso com a notícia. Afinal, quem não ficaria? – Que. Foda!

- É... – sorri de canto. – Nada de bebidas alcóolicas agora. – sorria ainda mais depois da piada.

- Qual é, Sam...? Você aguenta essa mana! Você é tão durona quanto um macho! – meu irmão deu um tapinha em meu ombro.

- Cala a boca... – resmunguei revirando os olhos e tentando esconder o sorriso.

- Então... Minha cunhada será mamãe? – aquela voz... Era a vadia, claro. Ela havia chegado por trás, como um felino que espreita sua presa, e se sentou a mesa sem ao menos ser convidada. – Estou feliz por você, Sammy!

- Ah, obrigada... – dei um sorrisinho forçado em sua direção. – Bem, Meg, Thom... Se me dão licença, tenho que conversar com o Jack sobre minhas aulas de pilotagem. Acho que vou ter que parar por um tempo por causa do baby. Volto já. – me levantei antes que dissessem qualquer coisa. – Ou não... – sussurrei comigo mesma enquanto caminhava em direção ao ruivo barbudo.

- Hei, Sammy! – sorriu ao me ver me aproximando. – Olha o que eu pedi para nossa mais nova, literalmente, mamãe. Haha! – arrastou uma taça de batida de maracujá não alcóolica em minha direção, apenas uma mistura da fruta, leite e leite condensado. – Senta aêh!

- Ah, valeu. – me sentei e peguei o copo com a batida, experimentando um pouco. – Cara, isso aqui é muito bom! – arregalei meus olhos demonstrando surpresa ao experimentar a bebida, então, matei o copo todo de uma só vez. – Tem mais aí? – me esticava para olhar a parte oposta do balcão.

- Tem fia... Relaxa! – Jack gargalhou. – Bom... Melhor pararmos com as aulas por enquanto, né não?

- Sim, sim, é sobre isso que vim falar com você. Melhor dar um tempo e tal... Não quero que aconteça nada de errado com o pequeno aqui. – alisei minha barriga indicando ao homem sobre o que me referia.

- Com certeza! Todos nós o queremos bem, Sammy. E ele será muito bem vindo a essa família! – ao finalizar sua frase, matou sua caneca de cerveja no ‘gute-gute’. – Como está se sentindo?

- Hmm... Bem enjoada e tonta... – então, olhei em sua direção e só assim, notei o sentido da pergunta por causa do olhar zombeteiro que lançava em minha direção. – Ah, sim. Confusa, acho. Curiosa, feliz, sei lá... É estranho você descobrir que tem outro ser dentro de você é meio... Bizarro. – gargalhei levemente com a ideia. – Mas estou levando numa boa. Mark está feliz e seus pais também... Tirando o fato da preocupação de sermos muito jovens, mas enfim... Aconteceu. – dei de ombros encarando meu copo vazio. – Agora é seguir em frente.

- É isso aí bicha maluca... Tem que ser forte agora. E você sabe que pode contar com ajuda de uma galera legal, por aqui, né? – deu um leve tapinha em meu ombro. – Inclusive o tiu Jack aqui! Hei, vou ser padrinho tá? – disse aos cochichos.

- Ai, ai Jack! – sorri. – Vai sim cara. Com certeza. – me levantei. – Vou procurar o papai do momento... – revirei meus olhos enquanto sorria. – Até daqui a pouco.

- Até fióta... Vai lá!

Mark estava do lado de fora do motoclube, conversando com Rob. Fui até eles para saber qual era o assunto do momento. Não podia ser outro, claro...

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A noite foi tinha sido muito boa. Bebi muita vitamina de sabores variados, escutei muito metal e vomitei toda a vitamina no final da festa... Mas aquilo era coisa de grávida. O que não me agradou muito foi o fato de Meg ter vindo puxar assunto comigo no fim da noite.

- Sammy, podemos conversar? – novamente, chegara como uma fera espreitando sua presa. E era exatamente isso que era. Descobrirão mais tarde. – Não quero esse clima ruim entre nós duas, me entende?

- Ah, tudo bem. Podemos sim, conversar. – estava do lado de fora do salão, encostada em uma pilastra, observando o céu noturno quando aquele ser decidiu me interromper.

- Eu queria pedir desculpas a você... – ela se aproximou até se colocar ao meu lado. – A culpa foi minha, devia ter conversado com Thomas e contado para você, logo em seguida. – sua voz era gostosa de ouvir, agradável, até.

- Ah, tudo bem. Nós conversamos e já está... – me virei em sua direção e no mesmo instante, minha fala foi interrompida pela admiração que me tomou. Meg era bem mais atraente vista de perto. Aqueles longos cabelos dourados caindo em grandes cachos se mostravam muito mais brilhantes sob a luz da lua, e seus olhos azuis muito mais intensos em contraste com sua pele pálida. – Tudo resolvido. – completei ainda a olhando fixamente.

- Você está bem? – perguntou gentilmente me fitando com preocupação, ou pelo menos era o que parecia ser. Meg era muito boa em fazer “parecer”.

- Ah, estou... – rapidamente desviei meus olhos de seu corpo. – Só um pouco enjoada mesmo.

- Ah, mas isso é completamente normal... – ela sorriu se aproximando um pouco mais. – Eu sou massagista... Se quiser, posso fazer algo para que melhore um pouco. – foi o momento em que engasguei e um acesso de tosse me dominou. – Sabe... Tem certos pontos do nosso corpo que se liga a órgãos internos... E massagem ajuda muito, em alguns aspectos. – a loira sorriu de uma forma. Ela era estranha. Era linda, magnifica! Mas algo nela não me fazia sentir bem. Era diferente de mais, e me incomodava grandemente.

- Obrigada pela oferta. – pigarreei e sorri logo em seguida. – Vou pensar no assunto, prometo.

- Que bom! – ela sorriu satisfeita. – Então, acho que estamos nos acertando, não é mesmo? – tudo o que fiz, foi balançar positivamente a minha cabeça. – Que ótimo! Vou procurar o seu irmão, talvez precise de alguma coisa. Então... Até mais tarde, Sammy. – ela se aproximou e, quando foi se despedir, ao invés de beijar meu rosto, “errou” a mira e encostou seus lábios no canto dos meus. – Te vejo por aí... – após sussurrar próxima ao meu ouvido, piscou e se colocou a caminhar pelo lado oposto.

- O que. Foi. Isso? – estava estática, ainda encostada na pilastra, pensando em algo que a levaria fazer o que havia feito. Ela era noiva do meu irmão! E eu estava noiva de Mark! Eu não podia me deixar levar por um rostinho bonito e um corpo sedutor. – Que droga, Sammy! – esbravejei comigo mesma batendo a mão em minha testa repetidas vezes.

- Amor? – a voz de Mark ecoou pelo corredor. – Aí esta você. Vamos para casa?

- Claro, querido. – me virei em sua direção. – Vamos sim. – sorri de canto.

Ele se aproximou e, após segurar em minha mão, me conduziu até a saída e dali, fomos de moto diretamente para casa.

Se eu não tivesse me deixado envolver por aquela inexplicável beleza de Meg, certamente eu não estaria por aqui contando a minha história, mas... Se Thomas tivesse se casado com ela, bem... As coisas poderiam ter acabado da mesma forma, ou até mesmo pior. Enfim, a vida não é um conto de fadas, está longe disso. E eu sempre soube, que de um jeito ou de outro, meus finais nunca seriam felizes, muito pelo contrário. Todos os caminhos me levariam a complicações eternas. Aquele era o meu destino, e não poderia ser mudado por ninguém.





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