Um passado distânte

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Um passado distânte

Mensagem por Convidado em Qui 12 Jul - 12:18

Se disserem que eu não me lembro do meu passado, isso é mentira. Lembro-me exatamente de tudo, cenas passam pela minha cabeça como se fosse um filme e acabo juntando tudo. É certo que algumas parte possam ser fictícias, já que vez ou outra eu viajo em meus pensamentos, mas no geral são fatos ocorridos. Lembro-me de minha infância, de meus pais, do meu primeiro cachorro, dos meus empregados. Sim, empregados, já que descendo de uma família abastada.

Não se assuste com o que eu vou começar a falar, visto que os acontecimentos se deram à muito tempo atrás, antes mesmo de seus bisavós nascerem. Você me pergunta como pode ser possível, já que sou tão jovem? Pois é, isso é mais um fato que eu revelarei com o passar do tempo, agora vamos voltar um pouco no tempo.

Minha memória só consegue puxar fatos depois dos meus quatro ou cinco anos de idade, acho que é normal uma pessoa não se lembrar de coisas antes disso. Bom, eu lembro que era uma criança feliz, recebia muito amor de meus pais e de minha família. Eu gostava muito de brincar e receber carinhos, era bastante paparicado por várias pessoas. Só fui começar a ter consciência de quem eram essas pessoas aos oito anos, com exceção dos meus pais o restante eram empregados. Meu pai era um cultivador de café, uvas e trigo, ele também era político e já havia descendido de uma família rica. Minha mãe, coitada, era apenas uma dona de casa que respondia aos caprichos de meu pai. Até meus dez anos vivi como um garoto mimado, foi quando meu pais morreu. Nunca entendi, até então, como tinha sido a morte dele, mais tarde eu descobri tudo. Lembro-me de ir ao velório de meu pai e chorar muito, meu pai era uma pessoa boa, era muito rude por criação, mas sempre tentou me agradar. No dia do velório mesmo eu me lembro de um homem confortando minha mãe, não gostava daquele homem e logo já peguei certa aversão à ele.

Passamos um mês minha mãe, eu e os empregados da casa assimilando a morte de meu pai. Um homem, o mesmo homem que confortara minha mãe no velório de meu pai, bate à porta de casa. Ele é anunciado pelo mordomo e a minha mãe o recebe. Ela me manda ir para o quarto, mas eu fico escondido, queria ouvir o que os dois conversavam. O homem me dava nojo quando o ouvi fazendo gracejos para minha mãe. Claro, minha mãe não teria condições de manter a mim e a casa da mesma forma que meu pai, ainda mais naquela época, onde uma mulher não poderia ficar solteira.

Você me pergunta que época é essa? Bom, direi a você. Foi no ano de 1530, visto que eu nasci no ano de 1520. Eu disse para que você não ficasse assustado, mas foi exatamente isso que eu disse. Voltando a história. Não demorou muito para aquele sujeito se apossar de tudo o que era do meu pai, seis meses depois ele já estava morando em nossa casa, dando ordem para os empregados, para mim e para minha mãe, um ano depois ele já controlava todos os negócios de minha família. Minha mãe chorava praticamente todas as noites e o sujeito chegar todas as noites bêbado. Eu já não via mais a felicidade que costumava ver em minha mãe, a casa já não tinha mais o ar aconchegante que costumava ter. Um ano e seis meses depois da morte de meu pai, minha mãe ficou doente, vinham médicos para cuidar dela, mas mesmo com todos os nossos recursos ela veio a falecer. Chorei muito e agora estava à mercê daquele sujeito.

A casa ficou totalmente sombria, o homem não ligava para mais nada, afinal tinha dinheiro e não precisava se preocupar com mais nada. A única coisa é que ele foi obrigado a ficar com a minha guarda, caso contrário perderia todo o luxo que conquistou. Os empregados eram obrigados a fazer o que ele queria e mesmo assim ele ainda os maltratava. Eu também era maltratado, apanhava, não podia fazer nada. Passei a ser uma pessoa infeliz.

Aos quinze anos já estava farto de tudo aquilo e queria por um ponto final naquela situação. Com a ajuda dos empregados bolei um plano infalível. Eu sabia que ele gostava de caçar e que virava e mexia ele ia para a mata no mesmo horário. Desde que a minha mãe se casou com aquele sujeito eu fiz, com a ajuda de Jamal, o empregado que eu gostava muito, uma passagem secreta, onde eu conseguia sair da casa sem ser percebido. Com a ajuda de Jamal eu armei uma emboscada para aquele maldito. Armadilhas foram colocadas em pontos estratégicos, onde ele passava.

Ele saiu casa no dia seguinte e eu fiquei em casa tranquilamente, porém ele não voltou como de costume e no meio da madrugada eu sai pela passagem secreta com uma cabeça de lobo empalhada embaixo do braço, para ver se ele tinha sido pego e para a minha felicidade tinha sido. Quando ele me viu esbravejou pedindo para que eu o soltasse, mas muito pelo contrário, com um olhar sádico eu olhei para o homem que já estava sangrando e dei uma paulada na cabeça dele, desacordando-o. Com a cabeça de lobo empalhado e dilacerei o corpo do homem. Fiquei horas para conseguir deixar o corpo dele totalmente dilacerado como se fosse realmente um lobo que tivesse feito aquilo.

Dias depois as autoridades vieram com a notícia de que o homem que tinha a minha guarda tinha sido morto por um lobo. Demonstrei surpresa ao ouvir a notícia, sinceramente deveria ganhar um Oscar pela minha encenação. Fui informado de que um tutor viria para ficar comigo e na noite do mesmo dia um homem bateu na porta de minha casa. Era um homem bem vestido e muito educado. Ele conversou muito comigo aquela noite e disse que ele tinha um problema o qual o impedia de sair durante o dia.

Ele começou a me dar tarefas para fazer e alguns treinamentos, ele havia dito que queria que eu fosse autossuficiente, queria que, com os treinamentos que ele me dava, nunca mais eu sofresse. Dias, meses e anos se passaram e eu já era um homem forte. César era um homem bom, apesar da estranheza de seus atos, ele me tratava de uma forma que somente meus pais tinham me tratado. Ele me ensinou muita coisa e sempre serei grato à ele.

Quando completei vinte e oito anos, já estava cuidando dos negócios da família um bom tempo, César me disse na noite anterior que precisava conversar comigo e que me daria um presente. Fiquei curioso e a noite eu fui me encontrar com ele na sala de estar. A sala estava escura, com apenas um lampião iluminando o ambiente. César estava sentado em sua poltrona favorita e logo já me pediu para que eu sentasse à sua frente e assim o fiz. Logo estranhei a ausência de todos os empregados da casa, mas preferi me calar. César tinha um sorriso nos lábios, estava com uma roupa elegante e tinha um ar meio misterioso.

- Filho, fico muito feliz por você ter evoluído da forma que você está hoje. Creio que você já seja um homem e que já possa seguir seu caminho sozinho e procurar um verdadeiro sentido para a sua vida. Hoje eu posso dizer que você está pronto para receber o presente que eu tenho para te dar. O presente consiste em aproveitar todo o treinamento que eu te dei ao longo desses anos.

Fiquei animado com tudo o que César tinha me falado e concordava com tudo o que ele tinha me falado. Não demorou muito para a minha animação reduzir ao desespero.

- Eu sei exatamente o que aconteceu em toda sua vida. Sei da morte do seu pai, da sua mãe e, principalmente, do seu padrasto. Sei que esse último não morreu com o ataque de um lobo e que você arquitetou tudo perfeitamente bem.

Nesse momento o chão sumiu e eu estava desesperado. Como ele poderia saber o que tinha acontecido exatamente naquela noite, somente se Jamal tivesse contado, mas eu sabia que ele era totalmente fiel à mim. Então ele continuou.

- Achei sua atitude totalmente louvável e, de certa forma, correta. Eu sabia, naquele momento, que você seria o meu pupilo e só precisei mexer uns pauzinhos para conseguir o que eu queria. Acalme-se, não vou prendê-lo, pelo contrário, irei presenteá-lo.

Eu tremia dos pés à cabeça. Estava com medo do que César poderia fazer, mesmo ele falando que não me prenderia.

- Jamal – Falei alto, me referindo ao empregado, ainda achando que ele tinha me traído.

- Não foi o Jamal que me contou, eu vi tudo o que você fez – Completou César – Eu venho lhe acompanhando desde a morte de seu pai, afinal seu pai foi morto pelo seu padrasto.

- Como? – Olhei diretamente nos olhos de César querendo uma resposta imediata.

- Eu vi quando seu padrasto matou seu pai para ficar com o dinheiro de sua família. Jamal lhe ajudou aos meus mandos. Sempre estive perto de você após a morte de seu pai. Quando não era eu, era Jamal. Queria ver até onde seu ímpeto iria, só não sabia que você mataria seu padrasto sem saber que ele é quem tinha matado seu pai. Isso superou todas as minhas expectativas. Minha intenção era que você descobrisse sobre a morte de seu pai antes de matá-lo.

- O que você quer dizer com isso? – Perguntei desesperado.

- Seu padrasto matou seu pai, eu arquitetei tudo para que você descobrisse e se vingasse dele, porém você se antecipou. Não o culpo, até pelo jeito que ele te tratava. Agora vamos ao que interessa. Vou presenteá-lo com uma coisa que irá te ajudar muito com esse seu ímpeto assassino.

Eu olhava para ele com dúvida, mas estava mais calmo devido à tudo o que ele tinha me falado. Ele não me reprovava por eu ter matado, pelo contrário, estava me elogiando. Ele me olhava desejoso, e por fim se levantou.

- Quero lhe dar a força, o poder e tudo mais o que você possa imaginar. Vou te presenteá-lo com a imortalidade!

Ele me erguia pelos braços conforme ia falando. Quando completou sua fala com a palavra “imortalidade” ele me abraça e de repente eu sinto uma pressão no meu pescoço. Eu só lembro de ter acordado na minha cama com uma fome absurda e incontrolável, apaguei de novo e acordo ao lado de um corpo totalmente dilacerado. Percebo, porém, que tinha sido eu quem matou aquela garota. Ouço a voz de César.

- Muito bem! Seja bem vindo ao meu mundo.

- O que aconteceu comigo? – Pergunto em desespero para ele.

- Você se tornou uma criatura da noite. Uma criatura que se alimenta de sangue humano.

Sem entender nada, Cesar me explica que agora eu era um vampiro e que agora eu precisava de sangue para viver, me explicou sobre todos os meus dons. Perante todos esses acontecimentos eu fiquei atônito, mas agora eu era um ser sobrenatural e isso não teria mais volta. Demorou um tempo para eu me adaptar a nova “vida”. Agora eu sabia que Jamal era um servo de César desde o começo e foi posto em minha casa antes do meu nascimento para vigiar o meu pai, já que César tinha depositado a confiança em meu pai.

Decidi viajar pelo mundo, conhecer coisas novas, costumes e tudo mais o que eu pudesse absorver do mundo. Jamal, que agora era o meu carniçal, me acompanhava e me protegia durante o dia e assim fui acompanhando a evolução humana com o passar dos tempos. Hoje estou aqui, na sua frente querendo fazer a mesma oferta que Cesar me fez, só que agora eu te dou a opção de querer ou não a imortalidade. Se você não aceitar, lamento, mas terei que matá-lo, agora se você aceitar um mundo novo se abrirá para você e terminarei de contar-lhe minha história, com as minhas viagens e todos os detalhes. Cabe agora à você escolher o que quer.

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