Sweet Home

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Sweet Home

Mensagem por Mestre do Jogo em Dom 28 Maio - 22:04


Sweet Home, a menor cidade de um dos menores estados da Virgínia Ocidental, 2564 habitantes cortada ao meio pelo rio Old Creack. Originalmente um assentamento de lenhadores, mineradores, caçadores e peleiros que cresceu e prosperou quando estas atividades ainda davam algum dinheiro para os desesperados e brutos o suficiente para encarar este tipo de vida. Sweet Home nasceu ao som dos machados, das picaretas, dos tiros e do sangue, talvez isso ajude a explicar sobre os problemas que ocorrem na cidade a cada quarto de século e talvez isso tenha um pouco a ver com os eventos que ocorrerão nesta história...

Benjamin Walker adorava as manhãs de sábado quando as aulas eram uma mera lembrança do dia anterior e um longínquo futuro de uma segunda-feira distante. Os sons da casa, o pai fazendo ameaças vazias sobre o que faria caso chovesse assim que ele começasse a lavar o cadillac preto da família em frente à garagem, a mãe balançando a cabeça enquanto oferecia aos filhos mais um pouco de panquecas e xarope de bordo no café da manhã, o velho Spike arranhando com as patas suas canelas para receber mais um naco de pão com geleia dado escondido por baixo da mesa, Billy buscando argumentos inteligentes do alto de sua cabeça de 6 anos para justificar porque razão o Bozo era muito mais divertido que Ronald McDonald.

- O Bozo tem desenhos e dá prêmios. – dizia ele

- E o Ronald tem hambúrgueres e fritas, bobão... você vai comer a tevê quando ficar com fome?

E assim eles iam se provocando durante o café, até suas vozes atingir a quantidade exata de decibéis que fazia sua mãe ordenar que terminassem o café e fossem brincar, e sem bagunçar a cozinha, pois Jeeeeeesus, se fizessem isso... Jeeeeeesus... a cozinha era o templo de Margareth Walker, talvez só “Jeeeeeesus” saiba o porquê, mas todos ali, inclusive Albert o pai, sabiam que era melhor não desafiar a Xerife quando ela estava em seu território... e pra ser sincero, para Albert era melhor não desafiá-la em lugar algum caso quisesse continuar tendo uma boa esposa em casa, obrigado.

Mas do que Ben mais gostava aos sábados era do que geralmente vinha depois do café da manhã, lá pelas nove horas, quando já nem precisava ser lembrado do que fazer a seguir, senão descer as escadas até o porão com uma bandeja de biscoitos feitos pela mãe em uma mão e uma jarra imensa de suco gelado na outra, colocar tudo num caixote de madeira posto ao lado de uma mesa retangular onde na noite anterior ele já havia deixado o tabuleiro, os dados, o escudo do Mestre, os lápis e borrachas e as fichas dos personagens dos amigos prontos para continuarem a aventura de RPG do ponto em que pararam na semana passada. Este era um hábito que ele e os amigos desenvolveram ao longo de quase 1 ano, e quando você tem 13 anos pode-se dizer que é uma quantidade de tempo significativa para se manter uma mesma atividade com uma rotina quase religiosa, só sendo interrompida em caso de nevascas, alagamentos ou doenças dos participantes... tirando isso, Ben e os amigos pareciam cumprir à risca o lema dos Carteiros.

Desta vez a campanha retomaria do ponto em que os amigos haviam encontrado os portais que levavam ao covil do dragão que dormia sob a montanha, ele mal podia esperar para ver como os cinco fariam para lidar com as armadilhas e perigos que ele previamente havia criado para eles durante as aulas da semana. Alfie provavelmente usaria o seu Bárbaro barbudo e burro pra entrar berrando pelos corredores e correndo na frente do grupo brandindo o machado no ar com as mãos, ignorando o conselho da Bruxa de Lucy que estaria preparando um feitiço de ocultação para o grupo, o Bardo de Bart certamente daria de ombros e tentaria se esgueirar em silêncio com o resto do grupo para ter mais uma história pra contar na próxima taverna que encontrasse para descolar algumas moedas e Ted faria seu arqueiro avançar com uma flecha já colocada no arco e ajeitaria a aljava nas costas.

É fato que a maior parte das crianças tem uma imaginação soberba capaz de transformar um pedaço de pau em uma espada, uma tampa de lata de lixo em um escudo e um lençol em uma capa de super herói, mas para Ben era mais do que isso... Ben era capaz de ver o que estava em sua cabeça com a mesma capacidade com que um adulto vê os carnês de contas dispostos sobre a mesa, e ele adorava isso, por isso ele raramente se importava em participar das sessões só como Mestre ao invés de aproveitar a diversão como jogador, sua mente andava rápido demais para se manter quieta e aguardando sua vez de agir, por isso era ele quem tomava a iniciativa para as atividades do quinteto fosse no jogo, fosse em outras brincadeiras, e talvez seja por isso que os outros quatro amigos se habituaram a ver em Ben a imagem de líder da turma, um posto que ele aceitava com o mesmo desconforto desde a primeira vez em que foi sugerido até hoje.

Ele já estava quase terminando os preparativos pro jogo quando veio a primeira batida na porta e ele ouviu do porão as vozes que chegaram abafadas lá de cima:

- Bom dia, Sra. Walker, posso dizer que a senhora hoje está mais radiante do que uma bela geladeira recheada de sorvetes de baunilha com calda de chocolate?

Ele revirou os olhos ao reconhecer a voz de Alfie, a esta altura já deveria estar acostumado com o humor exagerado do amigo que falava demais e as vezes até *perigosamente* demais para alguém com uma constituição física tão precária... Alfie era liso como uma vara, o tipo de garoto que faria qualquer mãe franzir a testa vendo agitar a bandeira da anemia em uma mão e da desnutrição na outra, mas apesar do corpo Alfred passava longe de qualquer doença ou raquitismo, como bem podia atestar qualquer um que tivesse a oportunidade de observar o amigo devorando qualquer coisa que seus dentes pudessem triturar sendo gostoso ou não... Alfred era o que se poderia chamar de “magro de ruim”.

Não foi uma nem duas vezes que a boca de Alfie colocou cada um, e as vezes todos, do grupo em apuros. O rapaz simplesmente não conseguia manter a matraca fechada... e geralmente isso é um perigo, especialmente quando você está diante dos valentões da escola e você faz parte dos perdedores da escola... foi assim que Ben conheceu Alfie, durante o intervalo do meio da manhã na escola Martin Collins... não foi a primeira vez que Ben apanhou da turma de Jeff “Sebo” Stevenson, mas certamente foi uma das mais memoráveis pois foi a primeira vez que ele urinou sangue na vida e por 3 dias, tudo por conta de ter tentado defender um moleque desconhecido que, segurado pelos braços por Rolf Hogan de um lado e Carter “Zarolho” do outro, perguntou se Jeff passava sebo de boi ou de porco nos mullets. Ben riu daquilo, assim como Alfred que via de regra ria (muito) das próprias piadas... o que impressionou Ben foi que a risada do garoto não cessou, nem mesmo depois de tomar dois bons socos no estômago e teve a petulância de perguntar se era verdade que Jeff tinha uma porquinha chamada Lucibela que teve filhotes com mullets. Quando Alfred estava quase desmaiado no chão e Jeff estava pronto para começar a chutá-lo na barriga Ben venceu a imobilidade de seu corpo e fez o que podia fazer: juntou uma boa pedra em tamanho e forma do chão do pátio e a atirou com toda a vontade na direção de Jeff... sua intenção era acertar o valentão no flanco, e mostrar a eles que de onde vinha aquela pedra poderiam vir milhares de outras... o que ele conseguiu foi acertar a parede cerca de meio metro longe do alvo, e assim Ben (e suas bolas) entraram na dança. E foi assim que eles se tornaram amigos há cerca de 3 anos atrás.

Depois de receber Alfred “Bocão” e perguntar se o amigo estava pronto pro jogo outra batida na porta veio lá de cima. Desta vez a voz que chegou até eles era baixa demais para ser discernida, mas pelo ranger das tábuas do assoalho eles não precisaram ouvir o que foi dito para saberem que Bart Clark havia chegado. Bart que controlava o personagem mais inteligente e centrado que Ben já havia visto, o mais próximo de um mini adulto que ele já havia conhecido e Ben sentia-se grato por isso, a inteligência de Bart era responsável por estimulá-lo a criar desafios cada vez mais complicados para os jogos, não era algo que Ben admitisse explicitamente, não por vaidade ou para não dar crédito ao amigo, mas por ser um acordo tão tácito quanto aquele que tornava a ele, Ben, o líder do grupo... todos sabiam que enquanto Ben era guiado basicamente por instintos (geralmente, certeiros), Bart era guiado pela visão ampla das situações e optava pelas saídas mais práticas possíveis.

Foi uma destas soluções que levou Ben e Alfie a se encontrarem pela primeira vez com o colega recém chegado, e aconteceu na velha mistura de loja de quadrinhos e vídeo locadora da cidade, quando o garoto com uma circunferência avantajada adentrou esbaforido pela porta e gritou: “Atropelaram alguém em frente à loja!”, o que imediatamente fez todas as mentes curiosas do recinto correr para a porta para ver o acidente, e teria levado Ben e Alfred também, não fosse o fato de eles estarem nos fundos do local discutindo sobre quem era mais macho: Conan ou Rambo... como sempre, Alfred defendia o Rambo com unhas e dentes. Já estavam quase passando por Bart quando ele pediu arquejando pelo esforço da corrida para que alguém pelo amor de Deus alcançasse a bombinha de asma que ele havia deixado cair e que rolou para baixo de uma imensa estante de revistas.

Depois de dar umas boas três aspiradas na bomba, Bart explicou que não tinha acidente algum. Ele disse aquilo porque estava sendo perseguido por Jeff Stevenson e sua turma que tentara lhe arrancar o dinheiro que ele estava para usar em uma máquina de doces na frente da barbearia do velho Tom, quando ele disse que não, Jeff respondeu que o aliviaria do peso do dinheiro e de uns quilos extras, na base da porrada. A esta altura todos sabiam que a loucura de Jeff e seu gosto por violência só vinham crescendo conforme o tempo passava e que isso levantava sérias dúvidas sobre se a presença autoritária de um adulto seria o suficiente para demovê-lo de suas intenções, por isso Bart achou que entrar naquela loja e fazer uma turba avançar para a saída seria uma coisa lógica já que dezenas é uma quantidade bem maior do que um trio, além de lhe poupar tempo já que caso o bully se mantivesse irredutível em seu avanço, ele teria que esperar o momento certo para passar pela porta do estabelecimento, pois não importa quanta raiva e doidice habitassem a cabeça de Jeff, ele ainda estava sujeito às leis da física, entre elas aquela que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço, e isso daria o tempo necessário para Bart se esconder pelo lugar ou sair pela porta dos fundos. E era esse Bart que descia agora as escadas e se juntava a eles com um sorriso que só não lhe dava a volta na cara porque ele tinha as orelhas no caminho. Bart não sabia, mas apesar de seu corpo imenso e barriga balançante, ele era a leveza do grupo, o sorriso fácil e o coração bondoso que contagiava com alegria as reuniões dos amigos.

A terceira batida na porta trouxe vozes audíveis lá de cima, e a esta altura Ben já sabia perfeitamente quem deveria ser, já que só dois integrantes estavam faltando para completar o grupo.

- Bom dia, Lucy, que beleza o seu cabelo.

- Obrigada, Sra. Walker, pedi para o papai arrumar igual ao penteado da Sra Johnson no velório.

Lucy Collins estava tão habituada a comentários mórbidos que já nem se surpreendia com os olhares assustados que recebia de volta, o humor criado quando se cresce com um pai dono de funerária pode ser... estranho as vezes, principalmente para habitantes de cidades tão pequenas quanto Sweet Home que era infinitamente mais provinciana do que Nova York de onde ela se mudou com o pai há cerca de dois anos depois que a mãe morreu e o Sr Collins decidir que estava cansado demais para a vida da cidade grande e achar que encontraria lenimento para sua perda em um lugar menor e longe o suficiente de onde conheceu e viveu com sua esposa. Lucy achava que ele teria feito melhor se também houvesse mudado de ramo, já que a mãe o ajudava na administração da funerária de Nova York, mas lidar com os mortos era o que Edward Collins havia feito a vida inteira e ele acreditava que estava velho demais para aprender truques novos, de forma que quando encontrou nos classificados o anuncio de venda de loja e ponto da funerária Holy Garden do Sr. Petter Wayland, ele não pensou duas vezes em fazer uma proposta que logo foi aceita, levando-o de mala e cuia para Sweet Home com a filha de humor negro e com o hábito de sempre se vestir de preto dos pés à cabeça, com maquiagem da mesma cor.

Seria difícil acreditar que Lucy encontraria outras crianças dispostas a aceita-la no grupo, talvez em Nova York onde as pessoas possuem mentes mais avançadas e abertas fosse outra história, mas alí, em Sweet Home, as coisas eram drasticamente diferentes, Lucy era esquisita mesmo entre os esquisitos. Não se pode dizer que os primeiros dias dela na escola houvessem sido os mais fáceis... além de carregar o peso de ser uma novata que chegava no meio do ano, ela vestia-se e portava-se com um modo que não era usual por alí e foi imediatamente rotulada como esquisitona pela maldade em bando das mentes pré adolescentes do lugar. Nem mesmo os nerds perseguidos pareciam confortáveis na presença da garota, mas mesmo assim Lucy esbanjava uma auto confiança inabalável e andava pelos corredores como se tivesse uma aura que a protegesse dos olhares e comentários maldosos. Não era raro que os alunos abrissem espaço no corredor quando ela passava, procurando se afastar dela como se a garota tivesse algum tipo de doença contagiosa... ela percebia isto, e gostava.

Quando Ben topou com um tabuleiro de D&D abandonado nos fundos da escola, com uma série de peças de plástico dispostas sobre ele sua curiosidade o levou imediatamente até lá. O cuidado na posição das miniaturas, as anotações em caligrafia graciosa nas páginas presas sob a pedra que narravam uma aventura nas catacumbas maias na iminência de um sacrifício ritual o espantaram e prenderam. O jogo estava em um ponto em que o único “herói” do jogo teria que decidir-se entre salvar a “mocinha” cercada pelos maias de ter o coração arrancado, ou degolá-la com uma faca de ouro enquanto o Sacerdote Negro abria seu peito. Ben rolou os dados para um teste de habilidade e velocidade, estabeleceu uma Dificuldade 15 (já que estava cercado de maias) e tirou 17 no D20, estava prestes a rolar outro dado para ver se conseguiria alcançar a corda que ligava o penhasco onde ele estava até a outra margem, levando a “mocinha” desmaiada sobre os ombros... estabeleceu novamente a Dificuldade, desta vez em 18... tirou 15 nos dados, excitado com a aventura não conteve-se em narrar em voz alta que ele conseguiu chegar até a corda e começou a escorregar por ela com a mulher nas costas quando os maias revoltados começaram a cortar, fazendo-os despencar rumo ao rio subterrâneo de águas caudalosas...

- Você sabia que ela é a Deusa da Destruição que está encarnando nessa mulher e que os maias queriam mata-la pra evitar um massacre?

Ben estava absorto o suficiente a ponto de imaginar o vento assobiando em seus ouvidos durante a queda e a luta que ele fazia para se manter reto quando batesse na água de forma que quando ouviu aquela voz feminina, deu um salto forte suficiente para fazer seus joelhos se chocarem contra a borda do tabuleiro e espalhar as miniaturas pelo chão.

- Agora você matou todos os maias, e a Deusa da Destruição e o herói. Tooooodos mortos.

O garoto olhava boquiaberto para a menina.

- E você também...

Ben arrastou-se sobre o cascalho do pátio onde estava sentado

- O chão é feito de lava, tolinho, por isso estou em cima dessa pedra. – disse ela, antes de começar a rir da cara de espanto dele.

Após a voz de Lucy veio o cumprimento de Ted Simpson. Theodore Mark Simpson, o quarto filho da família, o caçula. Ben ainda não o viu, mas já imaginava que o garoto deveria estar usando uma camisa três números maiores, calças com as bainhas cortadas e apertadas na cintura com um cinto velho e gasto de couro e sapatos surrados no mínimo dois números maiores, ele o imaginava assim porque basicamente todo o vestuário de Ted era composto por peças de roupas herdadas dos irmãos mais velhos, a exceção da roupa de domingo que era dia de missa em que o menino usava terno e calça social impecáveis com um sapato tão lustroso que você poderia usá-lo como espelho para se pentear.

A família de Ted era composta pelo pai David, a mãe Eleanora, e os irmãos Jack, Michael, Paul e ele, Ted... em ordem cronológica. Os Simpson’s eram gente boa e trabalhadora que cultivavam verduras e legumes que depois da colheita em sua modesta fazenda comerciavam nas feiras da cidade. Como para todos os agricultores, haviam as safras gordas e as magras... nos últimos três anos elas não foram exatamente boas, as tempestades e os invernos pesados comprometeram boa parte do que plantaram e os fizeram exaurir quase totalmente seus fundos de emergência, mas apesar de tudo, mantinham um otimismo e perseverança invejáveis, daqueles que só os homens que encontram a paz em Deus e na vida são capazes de ostentar.

Por ser a “raspa do tacho” e também pequeno demais para a idade, Ted não conseguia colaborar tanto nas tarefas pesadas da fazenda, mas o que faltava-lhe em força sobrava-lhe em criatividade. Os pais viam com orgulho cada invenção que o filho criava para facilitar o trabalho na fazenda... desde pequenas melhorias que ele propunha para o arado até um sistema de irrigação mais elaborado e eficiente que poderiam construir gastando quase nada para economizar quase o dobro. Crescendo neste ambiente de trabalho duro e incentivado pelos pais Ted ganhou gosto por invenções e sua mente deliciava-se em encontrar meios diferentes para fazer as coisas... claro, nem todas as suas invenções davam certo, algumas tinham o péssimo hábito de não funcionar, ou o perigoso costume de explodir, mas nenhum fracasso parecia ser capaz de minar a determinação do garoto que encarava suas falhas como meros desafios a serem superados.

E foi exatamente por conta de uma destas invenções que Ted acabou conhecendo seus futuros amigos Ben, Alfie, Bart e Lucy. Era o dia da exposição de ciências na Martin Collins, e Ted carregava com orgulho e cuidado a sua mais recente criação, um poderoso mini foguete que ele faria sumir nos céus usando uma mistura de gás metano, querosene, álcool e pólvora. Mais um “A” para o ás da ciência. E não era vaidade, àquela altura seria seu quarto prêmio de primeiro lugar na feira, todos conheciam e não podiam negar a habilidade do menino, e curiosamente era esta mesma habilidade que o colocava na classe dos perdedores da escola... e naquele dia, Ted fez o que os perdedores fazem melhor, perdeu... não para competidores da feira, mas para Jeff e seus amigos brutamontes que decidiram (como geralmente o faziam) que a força das ameaças era mais poderosa que a força da inteligência, de modo que bastou alguns petelecos e uns tapas na cara para Ted entregar à trupe do Sebo Stevenson seu projeto de ciências.

Quando Jeff acendeu o estopim que lançaria o foguete para o céu, todos (inclusive os professores) sabiam que aquele rapaz que não era capaz de dizer a diferença entre o pé esquerdo e o direito sem a ajuda de um mapa jamais teria a capacidade de criar algo que voasse (a não ser talvez algum objeto atirado na direção de outra pessoa). Mesmo assim, era um foguete, e todo garoto que se preza acha um foguete muito mais interessante do que uma barata presa em gelatina, de maneira que todos aguardaram ansiosos a decolagem daquele bólido.

Não ficaram tão ansiosos assim depois que o foguete explodiu na altura de seus olhos, chamuscando suas caras e cabelos e rendendo até alguns cortes e abrasões causados pelo deslocamento em alta velocidade dos fragmentos de plástico que compunham o corpo do experimento de Ted. A explosão rendeu uma semana de suspensão para Jeff e o ódio mortal dele para Ted, de forma que o garoto passou a procurar lugares que dificilmente eram frequentados por Jeff e sua gangue e descobriu que a biblioteca e a loja de quadrinhos/locadora eram os menos propensos a receber visitas daqueles mini psicopatas, parecia haver uma espécie de kryptonita incrustrada em qualquer objeto que remetesse mesmo que levemente à cultura que afastava os valentões, e eram ótimos lugares para conhecer outras pessoas com os mesmos interesses que ele, e foi assim que o quarteto se tornou um quinteto.

Tudo corria para se tornar mais um dia perfeito de outono em Sweet Home. As folhas das árvores amarelavam e caiam dos galhos, os pássaros cantavam e a grama continuava verde, tudo estava em paz, em relativa paz, em uma paz vacilante... uma paz aterradoramente frágil...

O primeiro corpo foi descoberto no bosque Shadow, Bob Sheridan, 5 anos encontrado morto pelo que parecia ser um ataque de animal selvagem que arrancou seu flanco esquerdo quase completamente. A cidade ficou chocada, havia anos que não se registrava um caso como aquele e quando a vítima é tão jovem e indefesa a comoção geral só faz aumentar. Duas semanas depois outro corpo foi encontrado, Elisabeth Holmes, 9 anos, encontrada morta no parque central da cidade, o braço direito arrancado na altura do ombro, os legistas disseram que ela morreu pela perda de sangue... não haviam traços de ataque animal, mas o que quer que tenha feito aquilo teve que usar um bocado de força para arrancar o braço num puxão tão forte que arrebentou carne ossos e músculos. A paranoia coletiva veio uma semana e meia depois: Rick Grimes, 7 anos, o corpo empalado em mais de 5 lugares diferentes pelos galhos do topo de uma árvore próxima à escola Martin Collins.

A polícia de Sweet Home não podia mais encobrir o fato de que parecia que estavam lidando com um serial killer na cidade. Uma ordem de recolher foi estabelecida, nenhuma criança poderia andar desacompanhada de algum adulto depois que escurecesse. Policiais deram palestras sobre prevenção de acidentes e reconhecimento de suspeitos para as crianças da escola, cartazes foram espalhados pelos comércios orientando o que deveria ser feito caso algum cidadão identificasse alguém abordando as crianças pelas ruas e becos e como Sweet Home era uma cidade pequena o suficiente a medida poderia surtir algum efeito uma vez que praticamente todos os habitantes da localidade se conheciam se não pessoalmente, mas ao menos de vista... um forasteiro seria rapidamente identificado. Mas nenhum viajante que entrou na cidade parecia mais suspeito ou inclinado a cometer aquele tipo de atrocidade.

Em questão de um mês o número de crianças mortas subiu de 3 para 7. Em comum havia o único fato de que todas foram encontradas esquartejadas de alguma forma com uma violência bestial. Isso explicava o medo dos pais quando os filhos saiam de casa mesmo durante o dia. Mas tente manter uma criança o dia inteiro em casa e você logo descobrirá que além de ser uma tarefa impossível é também um atalho bastante eficiente para a insanidade provocada pelos gritos, choros, protestos e crises de hiperatividade. Claro, até agora nenhum caso foi registrado durante o dia, então sob muito protesto mas com o inconsciente implorando por uma folga a Sra Walker relutantemente concordou em deixar Billy sair naquela manhã para brincar com a bicicleta que ganhara de aniversário no dia anterior. Ela ficou furiosa com o marido, imagine, dar ao filho de 6 anos a primeira bicicleta quando um maníaco poderia estar esperando lá fora para por as garras em seu caçula assim que ele saísse pela porta. O fato é que o Sr Walker apenas se negava a tirar parte importante da infância do filho, e acreditava que ter o garoto fora de casa mesmo que por alguns minutos não faria nada mal para o humor da Sra Walker.

E assim, Billy saiu eufórico de casa naquela manhã, sob o olhar atento da mãe e com ordens expressas de não ultrapassar a esquina da Maple e da Franklin, o que lhe dava todo um mundo completo de 150 metros de uma ponta a outra do quarteirão. Mesmo com toda a preocupação Margareth não conseguiu deixar de escapar um sorriso da mais pura felicidade com a alegria que parecia irradiar do corpo de seu pequeno. Billy era um doce de criança, apesar das estripulias que aprontava pela casa, e era também muito voluntarioso, provavelmente uma característica herdada de Ben, o irmão mais velho a quem ele idolatrava, e foi com essa valentia que ele disse que não queria ajuda para aprender a andar de bicicleta, que daria conta e que ele já tinha sete anos agora, estava longe de ser um bebê.

E parecia que o garoto de fato conseguiria se sair muito bem com o brinquedo novo, pois cada novo tombo só acontecia muito tempo depois do anterior, ele estava claramente melhorando e pegando o jeito... claro que o par de rodinhas extras parafusadas na roda traseira ajudavam, mas isso não diminuía o orgulho de Billy que passava acenando para a mãe que o observava da varanda da casa com as mãos apertadas junto ao peito.

Se o mundo fosse justo, Margareth Walker continuaria alí naquele misto de orgulho e apreensão observando o filho, mas o mundo, e em especial a Força que despertou de seu sono em Sweet Home não era nada justa. Na terceira vez que a campainha do telefone tocou Margareth foi atender, e assim que tirou o fone do gancho ouviu pouco ou nada além de estática... a ligação caiu cerca de 5 segundos depois e ela retornou para a varanda para continuar vigiando seu filho. Pensou em quem poderia ter ligado àquela hora, não tinham parentes na cidade, Benjamin estava na escola, Albert o pai deveria estar no trabalho no departamento de água e esgoto... ela continuou elencando nomes na cabeça enquanto sua cabeça ia de um lado para o outro procurando por Billy.

O danado não estava de forma alguma dentro da “fronteira” acertada, e levaria uma bronca daquelas quando passasse pela “alfândega”, com direito a confisco do veículo e apreensão da carteira de motorista por um período não inferior a 3 dias, sem chances de condicional ou apelações ao advogado Benjamin. Apressando o passo Margareth chegou na esquina da Maple, estreitou os olhos e perscrutou o lugar o máximo que pode, nem sinal... chamou pelo filho uma ou duas vezes, Billy as vezes gostava de se esconder só para aparecer de surpresa de algum lugar inesperado e fazer o coração de Marggie bater na boca.

Ela voltou para a rua principal e partiu para o cruzamento desta com a Franklin, um pequeno cubo de gelo começando a se formar no estômago, a voz repetindo Billy em acordes crescentes, passando do tom “Billy Walker, volte aqui JÁ” para o receoso “Billy... onde está você?” e finalmente chegando ao aflitivo acorde final de “Biiiiiiiiillyyyyyyy... Biiiiiiiiiillyyyyy???”

O corpo de Billy foi enterrado um dia após ter sido encontrado pela Sra Walker com a metade superior dentro de uma boca de lobo ao lado da calçada da rua Franklin. A roda dianteira da bicicleta tombada ainda girava ruidosamente quando ela puxou o corpo do filho pra fora do bueiro, Billy, seu Billy... tão pequeno e tão bonito. Billy dos olhos marotos e cabelo castanho alourado, Billy que gostava de comer cereal com katchup e assistir as aventuras de Tom e Jerry na tevê, Billy que agora estava com a cabeça presa apenas por uma fina tira de carne que a unia ao pescoço, deixando à mostra os ossos esbranquiçados e molhados de sangue fresco... onde um fino barbante estava amarrado.

Margareth sempre achou que morreria se visse um dos filhos ou o marido mortos, ou que no mínimo desmaiaria, mas não fez uma coisa nem outra... a cena era dantesca demais para seu cérebro processar, e tudo o que ela conseguiu fazer foi embalar o corpo de seu filho caçula nos braços enquanto puxava o barbante para fora do bueiro, o que saiu dele fez seu sangue gelar... três balões flutuantes, vermelho, amarelo e azul com uma tinta fantasmagórica escrita em cada um deles em palavras diferentes: “Venha” “Flutuar” “Billy”. Margareth Walker perdeu os sentidos.

Os médicos que a atenderam, junto com o psicólogo do hospital, disseram que ela deveria ter visto coisas, um trauma completamente explicável causado pelo choque de ver o corpo do filho mutilado. Não havia barbante algum no pescoço de Billy, nem balões, não havia traços deles na rua, não havia balões flutuantes presos nos galhos das árvores, nem restos estourados pelo asfalto ou calçadas, nem dentro do bueiro e nem no sistema de esgoto... mas quem ligava para balões? Billy estava morto, e parte de Margareth morreu com ele.

A morte de Billy foi como a morte de um Sol para a família Walker. Ben chorou tanto naquela noite e nos dias seguintes que seus olhos ficaram inchados e seus pulmões ardiam. Albert se transformou em um zumbi e parecia ter encolhido uns 5 centímetros de altura além de o dobro disso na cintura. Margareth andava como se estivesse flutuando pelos cômodos. Os pais parecem ter decidido lidar com a morte do filho transformando a casa em um iglu, onde nem o menor fiapo de calor humano era capaz de penetrar. Comiam em silêncio, assistiam tevê em silêncio e se despediam em silêncio... o único tom que saia de suas vozes quando necessário era tão vazio quando o vácuo sideral. Ben tentava ajudar, mas 13 anos não é idade suficiente para ensinar como lidar com uma situação como aquela, talvez nem 50 anos sejam... ele logo percebeu que suas tentativas eram inúteis... fracos ataques facilmente bloqueados por escudos gelados.

Depois que compreendeu a extensão do dano causado Ben sentiu pena dos pais, eram pessoas decentes, trabalhadoras e amorosas, mas não tinham com quem compartilhar aquela dor... a seu modo de ver as coisas, ele acreditava que a idade adulta fazia baixar algumas comportas importantes quando a dor era demais e isso impedia que seus hospedeiros fossem capazes de compartilhar seus fardos com os outros que os cercam. Ben sentiu-se então envergonhadamente reconfortado por ao menos não ter a idade dos pais, de ter 13 anos e poder contar com seus amigos durante aquele período terrível. Seus amigos que o ouviram, que falaram com ele, que ficaram em silêncio quando precisaram... os amigos que estavam lá, mesmo quando não estavam.

Levou aproximadamente 3 meses pra que os amigos se reunissem novamente para uma sessão de RPG na casa dos Walker. Alfie como sempre fez uma piadinha na entrada, recebeu em troca um olhar tão pesado que o teria feito abrir um buraco no assoalho e cair direto no porão se Ben não o tivesse tirado na mesma hora da frente da mãe. Quando estavam todos juntos, os amigos disseram que tudo bem se Ben não estivesse muito a fim de jogar naquela manhã, eles poderiam fazer alguma outra coisa, mas o garoto respondeu que estava tudo bem, e afinal, o que ele poderia fazer? Seu irmão havia morrido, isso lhe doía no peito e na alma e ainda o fazia chorar as vezes à noite em seu quarto, mas Billy era um garoto cheio de vida, alegre do instante que abria os olhos até o momento em que os fechava... era seu dever respeitoso não deixar o irmão o ver afundando-se em angústia e auto piedade, então ele decidiu que sim, eles iriam jogar, já estava na hora.

Tabuleiro posto, biscoitos e suco feitos, fichas lápis e dados na mesa, eles podiam começar, era só distribuir as miniaturas. A Bruxa de Lucy, o Bárbaro de Alfie, o Bardo de Bart e o Arqueiro de Ted. Hoje eles enfrentariam o poderoso Necromante que assombrava as florestas do Reino... isso se Ben conseguisse encontrar as miniaturas dos personagens dos amigos. Estranho, ele as havia preparado na noite anterior, exatamente como sempre fizera antes da morte de Billy. Tudo bem, ele deve ter esquecido, passou por muita coisa, era só abrir o armário do porão e as encontraria na lata de biscoitos velha que era exatamente onde ele as guardava ao final de cada sessão.

Ele abriu as portas do armário em um gesto automático de quem está acostumado a fazer uma tarefa rotineira, e estava olhando por sobre o ombro pra responder para Alfred que Rambo era um cuzão perto do Conan quando viu o rosto do amigo falastrão congelar por trás dos óculos de armação grossa, enquanto Bart deu um grito agudo, Lucy franziu o cenho e Ted afastou-se até escorar a parede do porão. De dentro do armário saíram 6 balões coloridos, flutuando no ar, fumaça fantasmagórica dançava em seus interiores formando nomes: Ted, Bart, Alfie, Lucy, Ben... cada um dos balões flutuando até seus “donos”... Bart, Ted e Alfred não fizeram nenhuma menção de pegar os objetos, alguns até afastaram-se, mas foram seguidos... Lucy e Ben seguraram os balões com seus respectivos nomes, observando absortos as letras esfumaçadas dançando do lado de dentro enquanto o sexto balão, o maior e mais brilhante deles, flutuava para o centro do porão, pairando exatamente em cima do tabuleiro de jogo.

Antes dos cinco dirigirem seus olhos para o “balão mãe” eles sentiram seus “filhotes” explodirem, Bart gritou de novo e levou a bombinha de asma até a boca, borrifando freneticamente, ao pé de cada um deles um pequeno objeto caiu, uma figura assustadora, uma miniatura como a que usavam durante os jogos, mas não era uma delas, era algo diferente e completamente alienígena... o segundo mais horrendo e assustador palhaço que eles já haviam visto na vida, e cada um deles tinha o mesmo rosto e roupas, mas estavam com os braços em posições diferentes... as crianças não repararam na hora, mas se colocassem “suas” peças uma ao lado da outra elas formariam a palavra “Morte” com os braços.

O sexto balão balançou no ar, não havia nenhuma fumaça em seu interior, mas ele definitivamente tinha algo além de ar pelo lado de dentro... algo pesado, como se o balão estivesse grávido e se este era o caso, pela velocidade das “contrações” ele estava prestes a dar à luz... e foi o que ele fez, com um estouro que fez os ouvidos dos meninos zunirem enquanto suas cabeças, troncos, braços e pernas foram encharcados por um líquido quente e vermelho com um assustador e real cheiro de sangue... porque ERA sangue. Bart quase perdeu os sentidos, Ted fazia o sinal da cruz em uma velocidade espantosa, o banho de sangue pareceu ter sido capaz de fazer Alfred perder a fala, limitando-se a abri-la e fechá-la seguidamente, Lucy olhava com estranha curiosidade para o líquido morno que escorria por suas roupas e pele e Ben piscava sem compreender, tentando se dar conta de que aquilo foi real.

Antes que alguma das crianças tivesse a oportunidade de voltar a si e tomar alguma outra ação, uma risada começou a ecoar pela diminuta janela que ficava no topo lateral de uma das paredes do porão e trazia o ar da rua para ventilar o lugar em situações normais. A risada entrava em seus ouvidos e enregelava seus ossos.

- Beeeennn... Beeeeennn

Benjamin não acreditava, não podia acreditar. Era a voz de Billy, a voz de Billy o chamando!!!

Os cinco apertaram-se em cima de uma bancada de ferramentas e espiaram pela janela, juntos eles viram o mais horrendo e assustador palhaço que eles já haviam visto na vida. O macacão era listrado de diversas cores sujas e manchadas e com grandes botões laranja no centro, as mangas ombros e gola eram bufantes, a mão coberta por luvas brancas e gordas como de desenhos animados, sapatos imensos e uma maquiagem branca no rosto com um sorriso vermelho nos lábios encimado por um nariz redondo do mesmo tom.

- Nós vamos nos divertir muito, Ben... nós vamos nos divertir MUITO mesmo... você vai ver... você... seus amiguinhos... vamos nos divertir TAAAAAANTO, Ben! Igualzinho o Billy!!! Venha me visitar quando puder e nós vamos flutuar! Flutuar, Ben! Venha visitar seu amigo Pennywise, traga seu amiguinhos... o Ted, o Bart, o Alfie... até a vadiazinha da Lucy... venha!

E com um sonoro *POP* o palhaço sumiu em uma nuvem de fumaça branca, deixando cair no chão um barbante com um nó em uma ponta e um três restos de balões estourados na outra... um vermelho, um amarelo e outro azul... o cheiro de esgoto era indisfarçável no cordão e em todo o resto...

A pergunta que fica é uma só: O que vocês farão agora?


Última edição por Mestre do Jogo em Qua 7 Jun - 11:34, editado 4 vez(es)

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Re: Sweet Home

Mensagem por Ben Walker em Ter 30 Maio - 15:45

Ben olhou para os amigos em pânico sem conseguir acreditar em tudo o que acabara de acontecer; a bocarra estendida em uma careta de horror foi aos poucos se fechando, incrédulo do que acabara de presenciar, o coração palpitando a mil.

Então, sua mãe que fora tachada de maluca, de aquela que tinha tido um surto psicótico pela perda e que tinha visto coisas, na verdade, não estava realmente surtando ou estava? E se estava, isso significava que todos eles também estavam? Será que existia alguma espécie de surto coletivo? Se sim, tinha certeza de que acabaram de passar por um.

Benjamin teve que fechar os olhos bem apertados para evitar as lágrimas ardentes que teimavam em brotar, tocou com as pontas dos dedos o sangue que empapava suas roupas como se para comprovar realmente que não estava enlouquecendo. E pode constatar a brutal realidade do sangue, sua presença nauseante, tão sólida que era quase como se debochasse do pânico presente entre os garotos e o terrível cheiro nauseabundo de esgoto que tomava suas narinas.

Se sua mãe  percebesse o que havia se passado ali, com certeza lhe daria uma bronca, aliás ultimamente, as poucas coisas que ela lhe dizia eram broncas dadas de forma desinteressada, e provavelmente pediria que o grupo não se reunisse mais em sua casa. Ben sabia que desde a morte de Billy, seus pais precisavam apenas de uma oportunidade para acabar com esse pequeno prazer de Ben, tornando a casa, na sepultura da família Walker.

Levantando lentamente, como se ainda tudo aquilo não fizesse parte plenamente da realidade, como se estivessem debaixo d’água, Ben respirou fundo, sabia que precisava mostrar aos demais uma certa aparência de tranquilidade, sabia que inconscientemente eles esperavam isso dele e falou: - Vocês viram o que eu acabei de ver? Isso não pode ser só nossa imaginação,  é mais do que isso... Isso foi um recado de quem m-matou o meu… - sua voz falhou por um segundo, para então retornar fraca como um sussurro – do Billy. Só temos que pensar e juntar as peças… -  Sugeriu dando de ombros, sabendo que suas palavras, naquele momento, fariam pouco ou nenhum sentido, sabendo que seus amigos, de imediato, o olhariam como se fosse um lunático em busca de sua vingança.

Lunático? Talvez não, talvez todas aquelas horas vendo filmes com o irmão, assistindo e re-assistindo os melhores (na opinião deles) e decorando as melhores cenas, o tenha ensinado que quando algo acontece a um familiar, alguém tem que pagar. E no caso de Ben tudo lhe tinha acontecido, ele assistia dia após dia sua família desmoronar. Primeiro a morte grotesca de seu irmão, e em segundo a morte diária de seus pais, que sequer o enxergavam mais ali. Às vezes, quando parava para pensar, à noite, Ben achava que o mais sortudo de toda a história tinha sido Billy, ele, pelo menos, não era obrigado a ver seus pais morrerem lentamente por dentro, zumbificados.  O Billy não tinha que se tornar um fantasma ignorado pelos cantos da casa; o Billy não teria que receber o olhar sem brilho, as palavras vazias e petrificadas, nem teria que ganhar os beijos gélidos de boa noite que, por fim, esgotaram-se. Para o Billy havia sobrado as melhores lembranças e homenagens e para o Ben? Simplesmente o vazio….

Pensar nisso trouxe em Ben novamente as lágrimas quentes nos olhos, mas dessa vez com um misto de sentimentos e sensações, e ele percebeu que agarrava a própria camiseta, até as juntas de seus dedos tornarem-se esbranquiçadas.

Olhou o grupo, um a um, e apesar de todas as adversidades eram, quando unidos, excelentes e complementavam-se, pelo menos nas campanhas de RPG jogadas ali em seu porão. Não era justo que vivessem olhando por sobre o ombro com medo de algo, ou de alguém, não era justo que Billy tivesse morrido em vão. Não er ajusto que ele Ben vivesse uma vida medíocre...  Ele não permitiria se acovardar. - E então, vamos descobrir e encarar toda essa…  essa Coisa?
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Re: Sweet Home

Mensagem por Lucy Collins em Ter 30 Maio - 22:19

Certamente Lucy já havia visto de tudo um pouco quando relacionado a morte, nunca teve medo ou nojo de ver corpos mutilados e fedorentos, já que acaba sempre ajudando seu pai a preparar os corpos para os funerais, e nas ultimas semanas os corpos tem sido de crianças e todas em pedaços, mas o que ela acabara de presenciar conseguiu levantar aquele fiozinho de cabelo da nuca que sempre teima em ficar enrolado feito uma molinha "tonhonhó". Ela olhou para seu corpo e viu suas roupas encharcadas de sangue, e o que a deixou encabulada de verdade foi só o fato das fumaças e tals, mas sim de ele estar morno isso quer dizer que foi recém retirado e quem teria a astucia para fazer um truque tão perfeito, mas a hipótese de ter sido só uma brincadeira de mau gosto de alguém que os odiasse foi totalmente descartada quando ela e seus colegas viram aquele horrível palhaço do mau.

Cara isso foi sinistro, no fundo ela começou a temer que isso pudesse ter sido resultado de suas buscas por coisas de feitiços e bruxarias, sua mãe vivia dizendo que um dia Deus a castigaria por ler essas coisas, mas ela não ligava porque sabia que seu interesse era em poder ter algo a mais para os jogos de RPG, já que todos seus colegas sempre eram mais inteligentes do que ela, e não queria jamais ser taxada de burra ou pior perder os poucos amigos que conseguiu fazer. Mas aquilo não parecia nem sequer ser algo físico, passou por sua mente, fantasmas, demônios, qualquer coisa que não fosse humana.

Ela olhou para Ben e viu em seus olhos a dor por ter relembrado se seu pequeno irmão Billy, estava mesmo claro que aquele palhaço havia matado Billy e todas as outras crianças, e que eles todos estavam em sua lista e nos olhos de Benjamim ela viu também a raiva e a vontade de se vingar. E ela observou Ben que parecia ter reunido de dentro de si todas as forças e se mostrou como um verdadeiro líder.
Estava mais do que certo de que tudo aquilo teria sido real e agora eles tinham que dar um jeito de sair dali e tomar mesmo uma atitude. Já que ninguém iria acreditar neles e a primeira de todas seria se limpar, o sangue começou a secar e o odor a piorar.

Lucy olhou para si mesma fazendo uma cara de nojo pegando a ponta do tecido encharcado com as pontas dos dedos e disse:

-Eca, isso ta horrível, eu não posso sair na rua assim, vou ter que esperar essa coisa secar. E precisamos limpar toda essa sujeira.

E um momento de choque talvez, Lucy reagiu como uma menina normal de sua idade que fica em pânico quando sua melhor roupa ganha uma mancha. E isso acabou deixando um ar de dúvida entre ela mesma e seus amigos, já esse comportamento não era um costume seu, pelo contrario ela sempre rejeitou os momentos de nojinho, Lucy sempre foi o tipo de garota que brinca com insetos e jamais o tipo de garota que tem “nojinho”. No mesmo instante em que percebeu os olhares confusos de seus amigos ela recompôs a sua postura e logo mudou de atitude.

- Ei seus bundões não me olhem assim eu ainda não fui possuída por um espírito de boneca cor de rosa, ta bom? Acho que devemos limpar essa bagunça, vamos lá é só um pouco de sangue fresco, melhor limpar antes que comece a apodrecer. – disse Lucy apontando para a mesa encharcada de sangue tentando disfarçar o momento menininha dela e torcendo para que Alfie não fizesse nenhum comentário inútil, mas claro que isso já era pedir demais.

- Por acaso sabe se tem vinagre por aqui, isso ajuda a limpar o sangue, é o que o meu pai sempre diz, principalmente quando ele é mais grosso. Olha eu tenho quase certeza de que esse sangue não é de animal. – disse Lucy cheirando o sangue em suas mãos.
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Re: Sweet Home

Mensagem por Bartholomeu Clark em Dom 4 Jun - 15:16


Bart aproveitou para roubar um biscoito enquanto Ben ia em direção o ao armário para pegar as miniaturas de seus personagens. Estava excitado em finalmente estarem todos ali denovo para uma nova aventura, havia sentido falta daqueles dias, sentia falta de seu amigo Ben, mas os dias mórbidos pareciam ter deixado Ben e agora estavam todos juntos, mais unidos do que nunca. Eles contra o mundo, contra o mundo que haviam criado, pois o mundo lá fora ainda o assustava como os três porquinhos fugindo do lobo mau. De certa forma era essa a história da sua não tão longa vida.

Sua boca que estava prestes a abocanhar o biscoito em sua mão, se abriu ainda mais enquanto seus olhos se arregalavam e ele soltou um grito de susto, medo...ou seja lá o que fosse ao ver aquela dança de balões escapar do armário, o fez se lembrar de seu último aniversário que sua mãe pagou um mágico que fez aparecer dezenas de balões de dentro da caixa onde sua assistente havia entrado minutos antes, claro que aquela cena era muito mais bizarra. Seus olhos acompanharam os balões se separarem e então sua visão focou em apenas um, o qual estranhamente tinha o seu nome e estava vindo em sua direção. Então ele deu um psoos para trás, e o balão o seguiu, outro passo para o lado, e o balão o seguiu, e ele continuou numa dança desajeitada tentando desviar do balão que irritantemente o seguia.

- Ted...Por favor, diz que isso é uma de suas invenções. Se for, saiba que é uma de suas melhores invenções, porque acho que acabei de borrar as calças. Disse Bart olhando para o balão acima de sua cabeça vendo a fumaça se mexer e derepente um som estridente faz com que Bart instintivamente solte outro grito e sentiu algo bater em sua testa. Seu coração agora quase saltara pela boca, sentia-o pulsar desde o seu peito até a garganta que pareciam cortar sua respiração.  Ele olhou para baixo para ver o que havia caído em sua testa vindo de dentro do balão, e abaixou-se para pegar o objeto. após alguns segundos levantou os olhos para o resto do grupo, que estavam com a expressão igualmente chocados.  

O balão maior sobre o tabuleiro estava pulsante como um coração humano, parecia pesado mais ainda sim flutuava. Sua pulsação foi aumentando gradualmente, e antes que as palavras pudessem sair de sua boca num grito de que o balão ia explodir....PUFF...algo viscoso o atingiu. a principio não sabia o que era, já que com o estourar do balão seus olhos se fecharam instintivamente, porém quando abriu os olhos, quase teve um surto.

Seu joelho vacilou por um segundo, mas se segurou sobre as pernas. E então uma risada surge do além, seguida por um chamado. O sangue gelou e seu corpo paralisou, seus ossos pareciam tilintar dentro de seu corpo de tanto que tremia. Era a voz de Billy. Seus olhos foram atirados rapidamente em direção ao Ben que expressava um misto sentimento naquele momento ouvindo com atenção á voz que falava à distância, hora abafada, hora parecia mais nítida. Mesmo seu pensamento estar totalmente tomado por questões sobre o que poderia ser aqui, felizmente ele teve a sorte de ainda ter uma discarga elétrica forte o bastante para ativar a parte de seu cérebro para conter sua bexiga, do contrário havia molhado as calças. E então outro estouro que fez Bart estremecer sobre a bancada e quase caiu por estar na beirada.

- Woow!! Essa foi a única reação que teve do acontecido. Desceu da bancada para prestar atenção em seus amigos que precisaram de um momento para colocar os pensamentos em ordem e ter certeza de que todos tinham visto a mesma coisa. Foi então que Ben tomou a frente da discusão, Bart apenas ouviu com os olhos arregalados levando sua bombinha até a boca, o que tinha certeza de que se concordasse com a ideia de Ben sua bombinha seria inutil, ele com certeza precisaria carregar uma mochila para carregar um cilindro de ar comprimido e uma máscara de inalação. Antes de comentar sobre o plano do amigo, rolou os olhos para Lucy piscando diversas vezes confuso  sobre a reação da amiga que assim como ele estava coberto do que parecia sangue.

- Lucy, você está bem? E sua pergunta veio seguida de um coice sutil. Bateu na testa com a palma da mão. - Dãaa, claro que você não está bem, ninguém está bem, estamos todos em choque. Ele voltou a atenção para Ben. - Cara, tem certeza mesmo que quer fazer isso? Você sabe que existe praticamente 99.99% de chance de a gente morrer né, e o Alfie será o primeiro, por que se essa Coisa não matar ele e ele nos colocar em uma encrenca maior, eu mesmo mato ele, ele sempre nos coloca em encrenca. Chegava a ser cômico um asmático gorducho dizer isso, mas alfie raramente conseguia manter a língua dentro da boca, a não ser naquele momento. Apesar do misto de sentimentos, o que falava mais alto naquele momento depois de ouvir as palavras de auto confiança de Ben era a adrenalina e empolgação de descobrirem o mistério. Um sorriso acabou brotando em seus lábios.

- Uma aventura!! Disse ele balançando positivamente a cabeça sorrindo para os amigos. - Teremos uma aventura de verdade, como no jogo, mas dessa vez será real. Procurar por pistas, decifrar os enigmas, buscar pelos lugares no mapa, derrotar o Dragão....quero dizer o Espírito do mal...A COISA...disse ele cheio de entusiamo e fazendo uma voz de mistério. - Eu estou totalmente dentro, isso poderia ser uma pista. Disse ele levantando a miniatura que havia caido na sua testa e mostrando para os amigos. Ah! E claro, também concordo com a Lucy, devemos limpar essa sujeira antes que sua mãe veja isso, essa vai nos arrastar daqui pra fora em um pistar de olhos se ela vê isso. Lucy, não precisamos de vinagre, só de uma lavadora. Disse ele apontando e inclinando a cabeça para o lado para a lavadora de roupas que ficava no porão que estava atrás de Lucy com um largo sorriso maroto no rosto.
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Re: Sweet Home

Mensagem por Alfred Sheep Jennis em Dom 4 Jun - 23:33

- Boa tarde tia Walker. Espero que esteja... “BEN”... – Deu um sorriso bobo que se pudesse seria devolvido com um soco... Mas por pura polidez e compreensão da mãe de Ben que conhece e sabe o jeito terrível de Alfie só olhou para ele com cara de poucos amigos.


O amigo salva Alfie da porta de entrada e assim que saem de perto da mãe de Ben Alfie sorri e diz:

- Ah! Essa foi boa vai... Você está BEN. Olha só, você está aqui... ãn... ãn... Tá... eu gostei.

Quando todos se aprontaram finalmente para o tão esperado RPG após um período longe dos tabuleiros por motivos de força maior, aliás tão forte que acabou levando o Billy para o lar dele, a casa dos anjos, o grupo teve de parar de jogar até que os ânimos estivessem mais calmos, é óbvio que nem tudo estaria bem, mas o jeito de Alfie para ajudar era o que ele sempre aprendeu a ter, sorrir. A graça de um sorriso acaba com a tristeza gerada por quase qualquer coisa e isso ele sempre pensou, como tirar da mente de uma criança a pureza de um pensamento que para ele funcionava?

Estava tudo pronto, tabuleiro armado, fichas nas mãos, os lugares na mesa, o biscoito gostoso com o suco que cheirava a frutas frescas em uma manhã de inverno na Africa do Sul. Era algo que até mesmo o Rambo pararia para ver e poder comer e jogar. Acreditando que até mesmo a grande força mostrada no filme First Blood onde o Rambo arrebentou uma cidade inteira mostrando que o Conan é um bostão, ele esperava as miniaturas para poderem começar a jogar, quando Ben foi busca-las no armário ele virou para falar alguma coisa Alfie defende o seu ídolo.

- É um bostão sim. Ele não aguentaria nem chegar perto do Rambo com aquela espada de bonequinho de ação dele.

Assim que abriu saíram alguns balões extremamente estranhos com os nomes de cada um dos presentes em uma espécie de fumaça dentro dos balões coloridos. Alfie não conseguiu nem ao menos fazer uma piada antes que um dos balões fosse em sua direção, ele tentou ainda se afastar do balão em vão. A coisa vinha para cima dele como se tivesse vida própria. Um sexto e maior parou sobre o tabuleiro e então ele percebeu que seu balão como o de todos os outros estourou. A seus pés uma miniatura com um palhaço muito medonho, parecia um daqueles filmes de terror bem feitos onde realmente dava medo do monstro, algo que alguém teria muita imaginação pra fazer. A sua miniatura tinha os bracinhos juntos no ar. Como se fizesse uma bola. Pelo visto não era só ele que tinha ganho a miniatura do capeta de peruca. O balão maior começou a pulsar, como se tivesse vida até que de repente ele estourou e lançou o líquido viscoso por toda a parte, molhando e sujando as crianças ali que esperavam pelo jogo com o cheiro e a viscosidade vermelha característica do sangue. E de fato era sangue.

A boca de Alfie abria e fechava enquanto suas mãos tentavam limpar o braço, o tronco, o rosto, limpando o óculos com as mãos tremulas enquanto olhava os outros perplexo, seu coração batia mais forte que os tiros de bazuca do Rambo enquanto tentava voltar a si.

Após isso uma  voz nada estranha do lado fora gritava por Ben, subimos na bancada de ferramentas tentando entender o que estava acontecendo quando o palhaço mais estranho e medonho do mundo apareceu ali e chamava as crianças para brincar, e em um barulho típico de um balão explodindo o palhaço virou fumaça após falar algo sobre visitar o amigo Pennywise. Simplesmente sinistro.

Após o susto, o coração voltar ao normal e a Lucy abrir a boca, a língua nervosa de Alfie jamais poderia ficar em sua boca sem se mover.

- Não reclama Lucy, isso aí já te dá uma corzinha  melhor...

Ela olhou brava

- Ficou vermelha de vergonha...

E por fim quando todos olharam bravos para ele...

- Que isso gente, não fiquem vermelhos de raiva... Já que assim poderemos VERMELHOr.... hahahahaha

Lucy falou sobre vinagre para limpar as roupas.

- Lucy, você está um tomatinho, mas vinagre... coloca sal também hahaha.

Em meio as conversas e a tentativa de resolver o problema da sujeira, Bart acha algo interessante no meio de toda a bagunça, nomeando aquilo como ”A Coisa.”

- Sim, vamos colocar as coisas na lavadora e aí podemos usar esses panos estranhos que a mãe do Ben guarda aqui para fazer roupas, e a gente pode usar a desculpa do nosso jogo e começar a aventura. Acho que a gente pode ir ver de onde ele sumiu e ver se ele deixou algo pra trás. E esses balões... acho uma boa a gente guardar todas as peças disso aqui, ou teremos uma piada mortal no fim de tudo...
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Re: Sweet Home

Mensagem por Ted Simpson em Seg 5 Jun - 14:32

Durante algum momento de sua vida, Ted pensava que atraía coisas ruins, como um ímã para desastres, cachorros sendo atropelados em sua frente, mães tropeçando com bebês no caminho do mercado e caindo de cara no chão, raios que caem no seu vizinho 2 ou 3 vezes (isso mesmo, o coitado conseguiu ser atingido por um raio 2 vezes, certo que na terceira ele só estava numa poça d’água tentando pegar uns materiais no jardim e a descarga elétrica veio e o atingiu, mas também conta), todas essas coisas aconteciam no momento em que Ted estava passando, olhando, ou tendo algum contato com os envolvidos.

Não deixou de pensar que o que tinha acontecido à família dos Walker tenha sido pela carga negativa que o rodeava, mesmo com todo o precedente de assassinatos de crianças rondando Sweet Home, Ted não deixou de pensar que o fato de se juntar ao grupo de amigos do RPG do irmão do Bem Walker resultou na desgraça de seu irmão.
Eram anos difíceis para todos, aquele clima funéreo, aquelas piadas do Alfred, o tom sombrio da Lucy, que o encontrou e o levou ao encontro de seus amigos de RPG, aquele grupo seleto, destoante da maioria dos garotos otários da escola, mas com muita personalidade. Ficou com o arqueiro no D&D, mesmo querendo jogar com o mago, o mais estrategista, criativo, mas como chegou por último, teve que ficar com o arqueiro, mas tomava proveito disso, as descrições de suas flechadas eram cheias de rodeios, quem via de fora, imaginava que ela fazia uma curva inimaginável, só pela riqueza de detalhes.

Mas naquele dia, após vários meses sem uma experiência de roleplay, depois de ensaiar cada diálogo épico na frente do espelho em casa, as vezes sendo chamado de bobo pelos irmãos, foi a hora de chegar na casa dos Walker... a empolgação foi cortada subitamente por aquela sensação de que tinha causado um mal àquela casa, depois de engolir em seco e encontrar o Alfie, mas sem querer puxar conversa logo de cara, esperou ele bater a porta pra chegar junto e entrarem juntos, depois da piadinha de estar “BEN”, deu uma tapinha imaginária na sua própria cara, fazendo sua mão escorrer pelo resto do rosto e procurando um ralo para escorrer, de vergonha.

Enfim, hora de se preparar para o mundo de Zorath, saudades dos orcs e trolls, de vários acertos críticos, de várias flechadas de costas, Bruce Buchannan era o arqueiro mais talentoso e virtuoso de que se tinha notícia, mas a megalomania RPGística teve de ser interrompida por aquele bizarro acontecimento:

- Como eu odeio balões, ainda mais aqueles que tem meu nome neles...

Seu trauma com balões vinha de um aniversário no passado, uma festa meio improvisada em que sua mãe fez um bolo e chamou só os vizinhos de lado e da frente, talvez a raiva maior tenha sido de ele não ter muitos amigos na época, mas o pior veio depois, um tio que morava a umas quadras de sua casa, que quase nunca aparecia, resolveu se fantasiar de palhaço pra “animar” a festa, e quando eu digo animar, eu quero dizer: “chegar bêbado, com cheiro de cigarro, maquiagem borrada e tentar dar em cima de umas mães solteiras da rua que estavam com seus filhos chatos lá”.

A porcaria do palhaço sombrio lhe deu um misto de raiva, medo e enjoo, afinal, lhe trouxe à tona alguns acontecimentos recentes e passados, todos eles sombrios.

O balão explodir e lançar aquele líquido vermelho em cima de todos só serviu pra piorar a situação... não, correção... ver a Lucy dizer que se tratava de sangue só fez com que a náusea piorasse e Ted vomitar o chão inteiro, sem nem pestanejar nem tentar desviar de alguém. Depois a cara de quem fez uma merda maior do mundo não foi escondida pela de pânico, junto com empolgação, excitação e vontade de dar umas porradas em algo, naquele palhaço, que afinal descobrimos que teve a ver com a morte do Billy, mas também do pânico de saber que podíamos ser os próximos, mesmo sem entender porque tanta empolgação dos outros em tentar “investigar” o caso.

- Galera, precisamos falar sobre isso com algum adulto, não?
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Re: Sweet Home

Mensagem por Mestre do Jogo em Ter 13 Jun - 20:45


Em sua cama Ben remoía mentalmente os inusitados acontecimentos daquela manhã. Os balões, o sangue, o palhaço... a voz de Billy. A voz de Billy. Relembrar aquela voz fez Ben fechar os punhos com força até fazer os nós dos dedos ficarem brancos, a voz de seu irmão, saída diretamente da boca daquele palhaço medonho, o palhaço que sem dúvida foi o responsável pela morte de Billy.

Eles estavam prestes a seguir o conselho de Lucy para lavar as roupas e se livrar de todo aquele sangue quando a porta do porão bateu estrepitosamente fazendo passar por ela Margareth Walker, a mãe de Ben, na certa trazida até ali por todo o estardalhaço provocado pelos gritos das crianças, gritos que segundo ela, eram capazes de serem ouvidos lá da esquina. Por um instante Ben sentiu-se aliviado por ver a mãe ali, era a chance perfeita para contar a um adulto responsável sobre o que acabara de acontecer, e sem dúvida aquele era um assunto que poderia ser muito melhor administrado por um adulto do que por cinco crianças.

Ben, coberto de sangue assim como os amigos, já estava prestes a abrir a boca para começar a contar tudo o que havia acontecido quando Margareth, olhando (fuzilando) os cinco bem nos olhos decretou que aquela algazarra cessaria ou todos iriam pras suas casas, deu meia volta e voltou para a cozinha batendo novamente a porta do porão atrás de si, levando consigo a vã esperança de Ben sobre obter a ajuda de um adulto.

Havia alguma coisa muito errada naquilo. Não importa o tamanho do seu trauma, não importa a sua dor, não importa o seu auto imposto exílio mental: a menos que você seja um psicopata quando você vê o seu único filho vivo e os amigos dele cobertos de sangue a ignorância não é uma alternativa. Mas Marggie simplesmente deu as costas e foi-se embora...

Sob os olhares incrédulos dos amigos, Ben pegou a jarra de suco e derramou o líquido de seu interior no chão para em seguida subir os degraus da escada com ela na mão, indo até a cozinha atrás da mãe.

- Mamãe, pode me dar mais suco? – perguntou ele, estendendo a jarra com o braço tão cheio de sangue que gotas pingavam pelo linóleo do piso. E ali, naquela manhã ensolarada de sábado, na cozinha bem iluminada pelos raios de sol que entravam pela janela, Margareth Walker olhou para o seu agora único filho vivo, abriu a porta da geladeira, pegou outra jarra cheia de suco e a entregou a ele sem dizer uma palavra, virando-se em seguida de volta para a bancada onde lia sua revista.

Ben começou a recuar boquiaberto, Marggie simplesmente não conseguia ver aquele sangue que cobria seu corpo e roupas, antes de virar para voltar ao porão acabou dando um encontrão com o pai que vinha para a cozinha, virou-se assustado pelo choque.

- Cuidado, Ben, eu podia ter queimado você. – ralhou Albert, erguendo o cigarro no ar, totalmente indiferente ao sangue que cobria o filho e agora sua própria camisa, onde as costas de Ben haviam batido.

Ben se desculpou com o pai e voltou perplexo para o porão, onde explicou para os amigos ansiosos que seus pais não viram nada do sangue, e que ele tinha a estranha impressão de que ninguém mais que não estivesse naquele porão quando tudo aconteceu, também não seria capaz de vê-lo. Fosse o que fosse, eles definitivamente passaram por uma experiência sobrenatural.

Os pais de Ben não podiam ver o sangue, mas ele e seus amigos sim, de forma que antes de continuarem a conversar Ben pegou todos os produtos de limpeza guardados na lavanderia e esgueirou-se com eles para o porão onde ele e seus amigos passaram os minutos seguintes lavando o sangue de seus corpos, roupas e das paredes e piso do porão, e descobriram que aquele sangue parecia se recusar a sumir, esfregaram com força e afinco, e depois do que pareceu uma eternidade o máximo que conseguiram fazer foi tirar superficialmente os traços daquele líquido macabro. Tiveram que repetir o procedimento por mais três vezes para conseguir dar conta e mesmo assim, com os braços doloridos e cansados, se estreitassem bem os olhos, ainda eram capazes de ver manchas rosa clara espalhadas.

Com os braços e as mentes exaustas, Ben recomendou que todos fossem pra casa e refletissem sobre se realmente queriam participar daquilo, afinal, eram seus amigos sim, mas Billy era seu irmão... ele não poderia aceitar que os amigos se colocassem em risco por um assunto que era seu e não queria excluir a possibilidade de todos dizerem “sim” movidos pela emoção do momento. Um dia depois do outro com uma noite no meio poderia fazer os amigos abrirem os olhos e perceberem o tamanho da enrascada em que estavam prestes a se meter.

Ben teve um sono agitado naquela noite, e voltou a ter o mesmo sonho recorrente que vinha tendo desde a morte do irmão. Os dois corriam pela rua em frente à casa, Ben em sua bicicleta BMX e Billy em sua bicicleta nova, ainda com as rodinhas traseiras. Ben pedalava à frente, provocando o irmão a alcança-lo, as vezes desacelerando de propósito para não deixar Billy muito pra tras para não desanimá-lo. O dia era ensolarado e o vento batia em seu rosto, quando olhava por sobre o ombro via Billy fazendo cara de esforço lá atrás, impondo mais força aos pedais. No sonho eles terminavam chegando em casa onde corriam pra sala para ver tevê enquanto a mãe trazia sanduiches e sucos.  

Ben ia falar agora mesmo para eles fazerem isso, mas quando freou a bicicleta e olhou para trás, não era Billy quem estava na bicicleta menor... era Pennywise, o palhaço. Ele sorria e seus dentes amarelos ficavam à mostra enquanto uma risada malévola saía de sua garganta e se aproximava mais e mais de onde Ben estava.

O sangue de Ben ferveu com aquela visão, ali estava o monstro que matou seu irmão. Benjamin virou sua BMX e a colocou de frente para o palhaço, colocou os pés nos pedais e imprimiu neles a maior força que já havia usado em toda a sua vida, seu coração bombeando ódio puro em suas veias. Na rua deserta as duas bicicletas avançaram como cavalos em uma justa, Ben urrava de raiva e Pennywise ria desenfreado com um brilho insano nos olhos.

- Você matou meu irmão, seu filho da puta!!! Eu vou te matar!!! – gritou ele

A corrente da bicicleta de Ben parecia que iria se arrebentar tamanha a tensão empregada, o guidão trepidava, a bicicleta gingava de um lado para o outro conforme Ben a inclinava para colocar ainda mais força nas pernas que afundavam e subiam freneticamente, seu corpo se projetava para frente para vencer a resistência do ar, as bicicletas poderiam explodir como os carros nos filmes, mas ele voaria com as mãos direto para a garganta daquele palhaço filho da puta. Ele o esganaria, por Deus Todo Poderoso, ele o esganaria até enterrar seus dedos na garganta daquele palhaço, arrancar a sua traqueia e enfiá-la naquela boca de merda! E depois sim, ele iria se vingar de verdade!!!

Ben passou por dentro daquela... Coisa. Seu corpo se desequilibrou quando ele tirou as mãos do guidão para realizar o salto e pegar o palhaço pelo pescoço e ele foi atirado no asfalto com o peito, pernas e braços ralando ardentemente pela rua, foi a dor mais excruciante que ele já experimentou em toda a vida, ele sentiu a carne de seu braço se abrindo pela fricção, sentiu a areia entrando nos cortes, sentiu o sangue começar a escorrer.

Quando conseguiu se virar e se apoiar nos cotovelos, viu a Coisa um pouco mais a frente, arcada para tras de tanto rir.

- Ahhhh Ben... eu não disse que nós nos divertiríamos juntos? Você já está se divertindo? Você já está amando?

- Olhe pra mim, eu sou o Ben, meu irmão morreu e eu estou putinho... HÁ HÁ HÁ HÁ HAAAAAA!!!

- Mas eu não quero você putinho, Ben, eu quero você com medo... a carne fica muito mais gostosa com medo, sabia? Billy estava com medo, no fim... os medicozinhos contaram que seu irmãozinho se mijou todo quando eu comi o pescocinho dele, Ben? Nham, delícia!!!

- Vamos colocar um pouco de sabor nessa carninha agora, ok? – disse o palhaço que começou a se agigantar junto com a bicicleta, crescendo, crescendo, até atingir a dimensão de uma casa e começou a pedalar na direção de Ben... e agora, o que ele fará?





Às 15:00hrs Alfred estava pensando tanto nos acontecimentos estranhos daquela manhã quanto pensava sobre como a placa de “não pise na grama” foi colocada na grama. Não que aquele assunto não tivesse sido relevante a ponto de quase fazê-lo molhar as calças na frente dos amigos, mas diante de situações absurdas, sérias, ou de perigo, era assim que sua mente trabalhava: alheia, e de preferência gerando um turbilhão de piadocas em seus pensamentos que logo se transformavam em palavras o que por consequência logo se transformavam em correria (quando tinha sorte) ou em eventuais enrascadas e surras (quando não tinha).

Bocão estava a caminho do cinema àquele horário, conforme havia verificado anteriormente ao passar pela banca de jornal do Sr Reinolds haviam 3 opções de filmes passando no Cineville com horários de início bastante próximos: Cemitério Maldito, Cyborg – O Dragão do Futuro e Máquina Mortífera 2. Ficou tentado a assistir o primeiro, mas provavelmente teria que dar um jeito de passar desapercebido pela portaria (já que não tinha idade suficiente para a classificação etária do filme), o segundo era um festival de pancadaria do Van Damme (que para Alfie era um Stallone genérico, com o diferencial que sempre arranjava um modo de fazer espacate nos filmes) e o terceiro era a sequência do filme do policial pirado do Mel Gibson com o policial “estou velho demais pra isso” do Dany Glover.

Ele já estava quase se decidindo quando seus olhos passearam pela loja de fliperamas do Tobby e lá no meio das máquinas tão conhecidas uma delas o olhou de volta, piscando pra ele, o chamando... uma máquina novinha em folha, ele não resistiu ao chamado. Na tela um negão vitaminado com dreadlocks amarelos e óculos escuros aparecia numa tevê e dizia ter sequestrado a filha do prefeito da cidade, e o tal prefeito (outro gigante forte pra burro, porque todos os prefeitos são assim...) precisava resgatá-la e pra isso conta com a ajuda do namorado dela, um carinha de camiseta branca e calça jeans, e o amigo dele, um japa vestido de ninja (porque ninjas são muito fodas, não tanto quanto o Rambo, mas são fodas). Final Fight era o nome do jogo, e é claro que uma alma aventureira e destemida como a de Alfred Sheep Jennis não poderia deixar de entrar naquela jornada, enfiar porrada em meio mundo e salvar a garota.

O garoto meteu a mão no bolso da calça e tirou lá de dentro 5 dólares e 35 cents, no cinema ele gastaria 1 dólar com a entrada, 75 centavos pro balde de pipoca e pro refrigerante e uns 10 centavos em chicletes pra mascar depois de comer a pipoca e isso lhe deixaria com um saldo de 3 dólares e 50 cents... ele poderia muito bem usar 50 cents pra comprar 5 fichas e guardar os outros 3 dólares para emergências futuras, quem sabe aplicando na bolsa de valores ou torrando tudo nas revistas do Batman, era uma decisão difícil a ser tomada... mas primeiro o jogo.

Alfred se aproxima do Caixa do fliperama caminhando como um cowboy que andou tempo demais sem sela à cavalo (pernas afastadas e arqueadas), dá uma escarrada falsa, uma coçada no saco (porque é o que todos os cowboys fazem) e disse na voz baixa e calma de Clint Eastwood para o balconista:

- ‘Dia, Tobby... minhas armas precisam de munição. – ele aperta os olhos, mirando para os braços finos como varetas. – Me veja cinco cartuchos dum-dum. – completa, batendo no balcão com cinquenta cents na palma da mão. - Se eu não voltar em três dias, fuja, ouviu bem? – Tobby limitou-se a entregar as fichas para o garoto com um revirar de olhos, Alfred agradeceu baixando levemente com os dedos a aba de um chapéu imaginário e seguiu para a máquina de Final Fight.

Antes de colocar a ficha na máquina, Alfie assistiu um pouco do jogo para decidir qual personagem ele escolheria. O carinha de camiseta branca era ágil e forte, o ninja parecia mais rápido, apesar de mais fraco, o prefeito bombadão era o mais lento e mais forte, era a pior escolha entre eles... até o vídeo mostra-lo pegando um inimigo pelo colarinho, pular no ar e aterrissar esmagando a cabeça do infeliz com a bunda no épico golpe chamado Cheira Cueca... então ele se tornou a única escolha possível.

Ficha colocada, personagem escolhido, dedos estalados, era hora de detonar! E ele detonou... ou melhor, foi detonado, mais precisamente seus dedos, quase esmigalhados pelo tapão que levou de Jeff “Sebo” Stevenson.

- Valeu pela ficha, Quatro Olhos. – resmungou Jeff, jogando Alfie para o lado com um empurrão de corpo, o encontrão não foi tão forte, mas para a quase inexistente constituição física de Alfred foi o suficiente para atirá-lo ao chão.

- Faz alguma piada agora, sua bichinha. – provocou Jeff, olhando com maldade para Alfie enquanto Rolf Hogan e Carter “Zarolho” se juntaram ao líder do bando.

A cabeça de Alfred já estava trabalhando a milhão pra responder e pra variar sua boca já havia se aberto para o fazer quando uma ideia iluminou sua mente assim que ele passou a mão pela perna e tocou o bolso esquerdo da calça onde encontrou um volume retangular... algo que ele e os amigos fizeram algum tempo atrás no laboratório de áudio visual da escola.

Ele aguardou o trio se virar para a máquina e se esgueirou para a entrada da loja, usando sua magreza em proveito próprio para passar por entre os vãos formados entre uma máquina e outra e puxar os cabos de energia da tomada, desligando-as. Fez isso com 3 máquinas que não estavam sendo utilizadas por nenhum garoto, cada uma distante uns bons 6 passos uma da outra. Em seguida caminhou até o caixa da loja com a cara mais deslavada do mundo.

- Meu bom homem... Eu tenho um sonho... sooooooooonho em que um dia toooooooooodas as máquinas daqui trabalharão em harmonia. Eu sonho com Tartarugas Ninjas rodando ao lado de Donkey Kong, com um Pac Man feliz e de mãos dadas com Double Dragon. Eeeeeeeeeeeu tenho um sonho!!! – e gesticulava pra lá e pra cá, olhar sempre no horizonte como se discursasse para a mais numerosa plateia.

- Mas como vou fazer isso se as máquinas não estão funcionando, homem? – pergunta, apontando na direção das máquinas que ele havia desligado.

Enquanto Tobby vai em direção a elas para verificar o que estava acontecendo de errado, Alfie se enfia por trás do balcão e vai até o aparelho usado para tocar o som ambiente do estabelecimento. Com dois toques, um no Stop e outro no Ejetc ele retira a fita k7 do compartimento que se abre, vai até o botão de volume que estava sempre próximo da posição “mínimo” e o gira para a posição “máximo”, retira o objeto retangular que estava no bolso esquerdo de sua calça e o coloca no lugar da fita antiga, fechando a tampa em seguida e dando um pleeeeeeno sorriso de alegria antes de apertar a tecla “Play” do equipamento, fazendo ribombar pelas paredes o conteúdo gravado no laboratório de áudio visual da Martin Collins.

“Anda rápido, Jeff... bota logo esse piruzinho em mim, bota! Me joga no chiqueiro, me chama de Porquinha, vai... cuuuuuuuuuuic!!!” – soou a voz Lucy Collins, esganiçada como ao que ela imagina que soaria a voz de uma porca. Imediatamente todos dentro do recinto passaram a olhar pra cima, na direção das caixas de som espalhadas pela loja.

“Mas é claro, Lucibella, meu amor... depois eu vou tirar o meu mini pintinho de dentro e passar todo o seu delicioso sebo nos meus mullets” – disse a voz de Bart em tom estridente

“Ai, faz dentro de mim, Jeff... vamos ter mais um porquinho de cabelo ensebado, vai!” – continuou a voz de Ted Simpson, empregando um tom afeminado.

“Este vamos chamar de Jeff Stevenson Júnior, meu amor, será o porquinho com o menor pinto do mundo, igual ao pai, cuuuuuuuuuuuuuic!” – finalizou a voz do próprio Alfie, fazendo todos os olhares se voltarem para Jeff Stevenson e seus asseclas.

- Eu vou te MATAR, pirralho! – bradou o bully, os olhos injetados de ódio no rosto completamente vermelho de vergonha e fúria. Se Alfred tivesse o mínimo de bom senso ele já estaria dobrando a esquina quando o trio começou a avançar em sua direção, mas era impossível ter bom senso quando se estava dobrado sobre si mesmo com a barriga doendo de tanto gargalhar.

- Calma, amigos... não podemos conversar sobre isso só um poRquinho? HA HA HA HA HA HA... – a risada ele estava dando já na calçada, tentando correr o máximo possível com Jeff, Rolf e Carter atrás de si.

- Mas que PORCARIA! – berrou ele, explodindo de tanto rir... se Jeff o alcançasse era bem provável que Alfie não fosse mais sentir as próprias pernas durante um bom tempo. Era trágico, mas também muito hilário. Ao olhar por sobre o ombro para ver a que distância estava de seus perseguidores ele viu algo metálico rebrilhando ao ser atingido pelo sol enquanto balançava pra lá e pra cá a cada larga passada de Jeff, um canivete de lâmina prateada... agora Alfie estava encrencado, era a primeira vez que ele via Jeff Stevenson ameaçar alguém com um canivete, e dado o histórico violento do rapaz, ele duvidava de que Jeff tivesse feito aquilo apenas para assustá-lo.

- Eu estava na cozinha, cortando uma cebola... – cantou em tom de marcha militar, dobrando uma esquina, Jeff e a dupla logo atrás.

- A faca escorregou, e eu cortei a minha rola!!! – e riu como nunca, cruzando a Avenida Anderson Hatfield segundos antes do sinal de trânsito mudar para verde, fazendo os carros avançar e detendo momentaneamente o avanço de Jeff e seus amigos.

Depois de correr por mais umas quatro quadras olhando para trás regularmente por precaução percebeu que não havia sinal de seus algozes, provavelmente havia conseguido se livrar de Jeff e sua gangue, por hoje. Voltar na mesma direção estava fora de cogitação, teve sorte com o sinal e não estava disposto a abusar dela, resolveu contornar o bairro por ruas periféricas até chegar em casa.

O sol já estava rumando em direção ao poente tingindo o céu com uma luz laranja rosada quando Alfred entrou pelo beco que cortava a rua Andrew Smith com a Roosevelt sendo divisado do lado esquerdo pelos fundos do Sun Rise, um restaurante japonês e do lado direito pelos fundos do antigo ferro velho dos irmãos Locatelli. Para pular a cerca metálica que dividia o beco bastava subir em cima da grande caçamba de lixo do restaurante e dali alcançar o topo da barra da cerca, tomar impulso com os pés e cair do outro lado. Era o que Alfie estava prestes a fazer quando...

- E aí, magricelo, vai pra algum lugar? – Alfred recuou de supetão, quase tropeçando nas próprias pernas. Alí diante dele com o canivete na mão estava Jeff “Sebo” Stevenson.

- Passou dos limites, Quatro Olhos, passou muuuuito deles. – disse Jeff, avançando lentamente com um sorriso de lado nos lábios.

- Qual é, amiguinho, larga essa faca... pra que essa raiva toda? Nós ainda vamos rir disso tudo... – foi dizendo Alfred, recuando mais alguns passos, virou as costas e começou a disparar pelo caminho de onde veio quando uma parede que não estava lá segundos atrás bloqueou sua rota de fuga.

- Ahhhh... nós vamos rir disso tudo sim, Alfie... nós vamos rir MUUUUITO disso tudo... – falou a voz vinda de onde Jeff estava, mas não era a voz do Jeff. Alfred girou novamente nos calcanhares e assistiu perplexo Jeff começar a usar a lâmina do canivete em si mesmo, provocando cortes fundos e sangrentos nos lábios que começaram a verter sangue.

- Já está com vontade de rir, Alfie? Não? Mas vai ficar, amiguinho... vai sim... você vai morrer de rir, Alfie... MORRER de rir, sacou? HA HA HA HA HA!!!! – a voz que não era de Jeff continuou a rir enquanto a boca do valentão de mullets se alargava de forma bizarra mostrando um sorriso escarlate enquanto a pele de seu rosto adquiria tons esbranquiçados pela perda de sangue e a ponta do nariz era removida com um corte rápido e preciso.

- Ops... acho que eu preciso de um lenço... posso usar a sua bunda? – riu aquela... Coisa a valer enquanto jatos de sangue espirravam do coto de seu nariz vermelho.

Alfred está diante de Pennywise, e se não for esperto, logo estará “flutuando” junto de Billy Walker.





Para a maioria das crianças os finais de semana ensolarados eram usados para brincadeiras e atividades recreativas. Algumas jogavam baseball no parque central, outras andavam de bicicletas ou faziam carrinhos de rolimã, Bartholomeu Clark ia à Biblioteca Municipal. Os outros podiam correr atrás de bolas, ou ralar os joelhos em brincadeiras mais arriscadas, Bart tinha o seu próprio universo e eram os livros, e nenhum outro universo se comparava ao dele. Bart velejou sob a bandeira do Barba Negra, explorou o núcleo da Terra com o professor Lindebrok, estava lá quando o jovem escudeiro retirou a Excalibur da pedra e se tornou o Rei de Camelot... bicicletas e carrinhos de rolimã eram legais, mas você já voou nas costas de um Pégaso como Teseu? E o melhor de tudo, nos livros não havia ninguém para apontar pra sua barriga proeminente, ninguém para chama-lo de balofo, ninguém para cantarolar O Passo do Elefantinho enquanto ele passava correndo para se livrar do ridículo. Nos livros Bart era sempre um intrépido aventureiro, uma testemunha ocular da história, nos livros ele era livre, tendo o direito de ser somente ele: uma alma leve que se alegrava com as histórias, se comovia com elas, se embalava por elas.

- Hummm... boa tarde, Bart, pensei que não o veria neste final de semana. – observou a senhora negra atrás do balcão principal da biblioteca – Você ia deixar a Shondra sem um “olá”, é? – disse ela, fingindo estar empertigada sobre os braços cruzados acima do imenso corpanzil. Assim como os idosos que costumavam ir até a biblioteca para ler os jornais diários, Bart era um dos frequentadores mais assíduos do lugar. Era sempre muito educado e gentil com todos de forma que não demorou a ganhar a estima dos funcionários que achavam admirável o seu gosto pela leitura, apesar de acharem que uma criança daquela idade deveria gastar mais horas brincando ao sol do que enfurnado em uma biblioteca, e entristecia-os de certa maneira saber as razões pelas quais o menino preferia os livros dia após dia: Bart era gordo, não ligeiramente gordo, não economicamente gordo, mas o tipo de gordo que vira automaticamente o alvo da chacota e brincadeiras cruéis das crianças, dos adolescentes, e até mesmo de alguns adultos semi amadurecidos.

- Oi, Shondra! Como está? – cumprimentou ele, com o característico sorriso iluminando o ambiente.

- Ahhh... assim está melhor. – derreteu-se ela, ainda tentando manter um pouco da fachada durona da periferia.

- Venha aqui, você vai gostar de ver isso. – disse ela, saindo detrás do balcão, caminhando até uma das várias estantes de livros da biblioteca, sendo seguida de perto por Bart.

- Aqui, acabamos de receber hoje cedo. – diz, retirando um pesado volume de uma prateleira alta o suficiente para Bart não conseguir alcançar sem o uso de uma escada. Os olhos de Bart brilharam ao ler o título em letras pretas sobre o fundo vermelho abaixo da figura de um helicóptero: Perigo Real e Imediato, e acima o nome do autor: Tom Clancy, o mesmo escritor do estupendo: A Caçada ao Outubro Vermelho, que narrava as aventuras do agente da inteligência Jack Ryan, Bart aguardava ansioso para ler mais sobre este novo personagem, ou era nisso que Shondra acreditava quando entregou o livro para o garoto.

- Uau! Que demais! Você pode reservar pra mim, Shondra? – perguntou ele, esperançoso. Sabia que pelas regras os livros lançamento não podiam ser emprestados até completar um período pré estabelecido dentro da biblioteca, ficando à disposição de todos, Shondra até cogitou a possibilidade de repetir esta regra ao garoto, mas lembrou-se de todas as vezes que Bart era a única alma viva dentro daquele lugar junto com ela, das vezes que conversaram sobre amenidades, as vezes que o menino a ajudou a recolher e organizar os livros de volta às prateleiras.

- Boca de siri, certo? – ofertou ela, dando uma piscada. – Mas eu pensei que você fosse começar a ler agora mesmo, não era o livro que você estava esperando tanto? Ou está procurando alguma outra coisa hoje, Bart? – ela observou os olhos do garoto indo pra lá e pra cá, aparentemente a pergunta simples havia deixado o menino desconfortável, como geralmente ficam aqueles que pensam em fazer algo suspeito.

- Ah... é que eu decidi dar uma variada hoje, sabe? – respondeu ele, tentando soar naturalmente

- Seeei... e o que vai ser então, meu jovem? Uma aventura com Julio Verne? Uma batalha com Tolkien ou uma disputa com Dumas?

- Ãhn... na verdade eu queria alguma coisa sobre criaturas sobrenaturais.

- Aham... – reagiu ela, desconfiada – Vampiros, Lobisomens, Fantasmas... quer encher essa cabecinha com histórias de terror, é? – Bart precisou pigarrear duas vezes antes de responder, sua vontade era de sacar a bombinha de asma e dar umas boas tragadas, mas achou que isso deixaria Shondra *ainda* mais desconfiada.

- Demônios, Assombrações, Possessões e Exorcismo. – respondeu ele tão rápido que a bibliotecária quase não chegou a compreender.

- Bartholomeu Clark, o que você quer com esse tipo de livros? – inquiriu ela, deitando aqueles imensos olhos negros sobre o garoto, fazendo-o sentir os pés afundarem no chão como afundariam na areia da praia tragada pelas ondas.

- Só... curiosidade, sabe? Uma aposta que eu fiz com meus amigos. – Shondra limitou-se a erguer o braço grosso e flácido no ar apontando para um corredor específico de estantes.

- Lá no fundo, mocinho. Os últimos da estante, que quase ninguém toca porque as pessoas tem o bom senso de não mexer com esse tipo de coisa por bobagens como apostas, está ouvindo?

- Sim senhora... – balbuciou ele cabisbaixo, encarando os próprios pés.

- Estarei na minha mesa se precisar de mim. Se você é valente o suficiente para fazer uma tolice dessas é bem capaz de ir até lá sozinho, não é? – perguntou ela, erguendo as sobrancelhas e voltando até sua mesa, fazendo os saltos dos sapatos ecoarem pelo chão de tacos. Shondra esperava que aquela atitude fosse contribuir para fazer o garoto abandonar de lado aquela besteira, e ela parecia estar certa pois por alguns minutos Bart permaneceu imóvel diante do corredor indicado, como alguém que calcula a altura antes de pular para saber se pode quebrar o medo ou as pernas.

Bart quebrou o medo... não de maneira exemplar e com galhardia, mas tremendo como uma vara verde ao vento, ele ouvia seu coração bater dentro da cabeça, gotas de suor gelado escorriam de suas têmporas, por baixo do suéter pesado formavam-se manchas de suor sob as tetas flácidas, mas ele continuou avançando, sua mão segurando a bombinha de asma com força como se fosse sua tábua de salvação. O barulho do vento que entrava pelas janelas assobiava entre as prateleiras e mesmo a luz do sol parecia retroceder conforme ele avançava, como se estivesse entrando em uma estrutura meio enterrada sob o solo, a sensação de mau agouro arrepiava os pelos de sua nuca e ele começou a rezar para Jesus para conseguir continuar andando.

Quando chegou ao fim do corredor o pavor era tanto que ele leu os títulos das lombadas dos livros o mais rápido que pôde até encontrar um que fosse grosso o suficiente para (se Deus quiser) ter as respostas que ele procurava sem ter que voltar até ali nunca mais. Por via das dúvidas juntou mais 3 outros livros e mandou a dignidade plantar batatas, voltou correndo o máximo que pôde pelo corredor, sentia como se houvesse uma presença maligna correndo atrás de si bem em seus calcanhares, pronta para pegá-lo e arrastá-lo para as trevas... o som pesado foi causado por sua queda, junto com os livros, assim que chegou ao corredor principal e agradeceu a Deus por sentir a luz do sol batendo sobre seu rosto e costas.

- Bart? Está tudo bem aí?

- E... está... sim, Shon... dra... eu só escor... escorreguei! - três apertadas no gatilho da bombinha fizeram sua garganta abrir novamente, permitindo que o fluxo de ar passasse por ela, mas foram precisos mais de cinco minutos para que se coração descesse do cérebro e voltasse a bater dentro do peito.

Eram quase cinco horas da tarde, três horas a mais do que quando Bart entrou na biblioteca, quando seus olhos cansados e lacrimejantes de tanto ler finalmente pareceram encontrar o que ele estava procurando, exatamente no último livro que restara (não o grosso, que acabou mostrando-se completamente inútil), mas um dos mais finos e pela aparência desgastada, o mais velho dentre todos.

“Uma vez que toque em alguém esta criatura pode assumir tanto a sua forma física quanto sua identidade, assimilando superficialmente seus pensamentos e lembranças, habilidades e maneirismos. Suas habilidades mentais incluem, mas não se limitam a, telepatia, telecinese e projeção astral, o que lhe permite “estar” em dois lugares (ou mais) ao mesmo tempo.

É um ser carnívoro que parece ter predileção por vítimas aterrorizadas, fato ligado à forma como habitualmente incute o máximo de medo possível em seus alvos antes de devorá-los. Muitas vezes suas presas são comidas apenas parcialmente e deixadas abandonadas em locais de fácil acesso para causar e espalhar o medo nos corações daqueles que encontrarem os cadáveres. Por sua personalidade facilmente influenciável as crianças são seus alvos preferidos.

Segundo estudos realizados por Caçadores na Inglaterra no século XVIII a criatura é resistente a quase todos os tipos de ataques físicos e ritualísticos, sendo a Fé a fonte mais eficiente, não o bastante para mata-la, mas o suficiente para afugentar a criatura e fazê-la adormecer por longos períodos. Dizem que apenas a fera pode matar a fera, o que sugere que a criatura pode ser morta por algum objeto intimamente ligado à sua criação.”

Embaixo do texto Bart viu uma figura monstruosa e horripilante, e abaixo dela o nome que o deixou incrédulo: Woa-Woa


Ele releu o nome outra vez para ter certeza de que não havia se enganado... antes não houvesse feito isso... as letras começaram a se mover diante de seus olhos, um baile te tinta preta sobre papel amarelado, mudando, subindo, descendo, formando novas palavras, novas frases, novos sentidos...

“Já descobriu quem eu sou, meu abiguinho goduchinho-inho-inho?” – leu ele, sua bunda mordendo com força o assento da cadeira.

“Você tinha que ler, não tinha, Bartizinho Enxeridinho? Aqui vai uma coisa pra você ler então: "Aqui jaz Bartholomeu Clark... morreu assado como um leitão” Hummmm... um leitãozinho, Bart... com lombinho, bom bacon, com costelinha, já pensou? Eu vou arrancar a carne dos seus ossos e chupar até estalar na minha boca, Bart!”

Bart bateu o livro com força e se afastou da mesa.

“Ohhhh... fechar o livro não vai me fazer sumir, Bartzinho... nós neeeeeeeeem começamos a nos divertir ainda... mas podemos começar agora...”

- QUE TAL? – berrou a voz vinda das costas de Bart, o garoto virou o mais rápido que pôde e assim que ficou de frente para a criatura vestida de palhaço não teve nem tempo de focar sua visão, a pesada cópia da bíblia do Rei James trovejou contra seu rosto, atirando-o pesadamente ao chão. Bart sentiu sua bochecha inchar onde recebeu o golpe e seus olhos começaram a lacrimejar.

- Shondra!!! Socoooorrooooo Shondraaaaaaaaa!!! – berrou ele alucinado, patinando sobre o piso arrastando a bunda sem conseguir se levantar.

- Shondra, Shondra, Shondra, Shondra, SHONDRAAAA!!! – zombou a criatura, fazendo Bart girar a cabeça na direção da mesa onde a bibliotecária deveria estar... mas não estava. Nem Shondra nem nenhuma outra pessoa estavam ali a não ser ele e o palhaço, ele e Pennywise.

- Temos bastante madeira por aqui e bastante papel, abiguinho... dá pra fazer uma beeeeeeela fogueira. – riu ele, quebrando o pé de uma das cadeiras da biblioteca.

- O que você acha, Bartizinho Inteligentinho? Será que essa estaca dá pra enfiar no seu cuzinho e sair pela boca? Assim eu posso girar você no espeto enquanto você assa sobre o fogo que eu vou acender com as páginas desse maldito livrozinho que você estava lendinho... não vai ser o máximo? Bart à pururuca! NHAAAAAAAAMMM!!!

E a Coisa avançou na direção do garoto que sentia seu peito apitar, precisando desesperadamente da bombinha de asma e de um milagre...





Poucos lugares são mais serenos do que os cemitérios, isso em dias em que não há enterros, claro, quando tudo o que você ouve são os sons de alguns pássaros e o farfalhar das folhas das árvores sendo agitadas pelo vento. O último local de repouso, o lugar que iguala os ricos e os pobres, os bons e os maus, os bonitos e os feios, os pretos e os brancos... ao contrário dos homens a Morte não tem preconceito, equalizando toda e qualquer diferença que eles tenham tentado (ou não) erguer enquanto respiravam. Ao que parece, a igualdade humana não pode ser alcançada sem uma boa dose de ironia.

Como filha de um agente funerário, Lucy Collins aprendeu desde cedo esta faceta da existência humana, e descobrir este significado oculto lhe trouxe paz para assumir sem medo sua própria identidade, não atendo-se a modismos ou às tentativas de humilhação efetuadas por todos aqueles que pensavam diferente dela... no fim, todos estavam fadados à inevitabilidade da Morte, e talvez um dia aqueles que a desdenharam acabem tornando-se seus vizinhos de jazigo, seus ossos se tornando lentamente pó iguaizinhos aos dela.

E foi, também, por essa habitual paz e tranquilidade que aquela diminuta figura vestida de preto dos pés à cabeça poderia ser vista caminhando entre os túmulos naquela tarde de outono, o Cemitério Municipal era um de seus locais preferidos na cidade, e geralmente era pra onde ela costumava ir quando precisava pensar seriamente em alguma coisa, pescando ideias enquanto observava as lápides e estátuas, e depois do que vivenciou naquela manhã na casa de Benjamin Walker ela sem dúvidas precisava pensar MUITO seriamente sobre o caso.

Apesar de suas concepções sobre a vida e a morte, da sua maneira tida como “mórbida” de encarar as coisas, de seu humor peculiar, Lucy não acreditava em fantasmas. Sua mente era tão racional quanto a sua ou a minha... ela não esperava que uma alma imortal fosse se desprender do corpo no momento da morte e ascender aos céus; não acreditava que vultos fantasmagóricos voltariam para suas moradas terrenas para visitar ou atormentar seus entes queridos até resolverem os assuntos que deixaram inacabados em vida. Para Lucy a Morte era a Morte, o Fim, o Inevitável... era o que dava sentido às suas convicções pessoais, tirar isso dela era como tirar o chão de seus pés, como lhe entregar uma bússola que não aponta para o Norte mas gira sem parar sobre seu próprio eixo.

Ouvir a voz de Billy naquela manhã fez isso com ela... a desorientou tão forte e tão profundamente que ela não soube como lidar com a situação. Por isso ela não fugiu do balão com seu nome em fumaça fantasmagórica, por isso não gritou quando o balão Mestre explodiu cobrindo-lhe de sangue bem como aos amigos, por isso sua reação imediata após aqueles eventos foi sugerir que precisavam lavar as roupas para tirar o sangue delas e de seus corpos... não foi por praticidade, foi por uma necessidade brutal e premente de se livrar daquela irracionalidade e fazer as coisas voltarem a fazer sentido. Esta era a outra razão pela qual ela estava ali, no seu lugar seguro onde as coisas faziam sentido.

Quando Ben perguntou se os amigos se juntariam a ele para investigar o que estava acontecendo duas forças opostas colidiram no interior de Lucy, a primeira gritava para que ela recusasse a empreitada: “embarcar nessa bagunça insana e desconexa? Nem a pau, dê o fora!”. Era loucura demais, era contra seus princípios, era atentar contra a sua racionalidade, era jogar na lama todo o caminho pela qual ela cimentou suas crenças pessoais. A outra força vinha dos olhos de Ben, uma força que ela não sabia precisar de onde vinha, um determinismo tão inabalável que por instantes fez seu corpo se sacudir por dentro e arrepiar os pelos de seu corpo, como se houvesse algo naquele garoto além do que os olhos podiam ver... e isso também a amedrontava, mas algo superior a ela mesma dizia que ela TINHA que atender àquele chamado.

Ela lembrava-se dos primeiros dias na nova escola, da forma como foi recebida pela grande massa de estudantes, de como apontavam para ela, como alguns cochichavam a seu respeito enquanto ela passava e de todas as chacotas e brincadeiras de mal gosto pelas quais passou (e ainda passava). Em Nova York não era diferente, haviam lá os que também lhe apontavam dedos e atormentavam com apelidos e bullyng, mas a diversidade de uma cidade tão grande quanto aquela também lhe permitia encontrar outras crianças que tinham gostos e preferências parecidos com os seus, embora elas preferissem se definir como “góticas”, um rótulo que Lucy nunca ostentou sobre si mesma. Ali em Sweet Home onde a população não chegava a 3 mil habitantes e onde a maior decisão das pessoas era sobre se seriam fazendeiras ou comerciantes Lucy era tão isolada quanto uma vítima de lepra.

Ela decidiu que não se deixaria abalar por isso, veio da cidade grande onde as pessoas eram muito mais cruéis e onde você aprende a ser duro ou quebra... ela armou uma muralha em volta de si e determinou-se a torna-la impenetrável, quanto mais a forçassem, mais forte ela seria... até conhecer aquele rapaz que decidiu salvar a Deusa da Destruição do sacrifício ritual dos maias. Talvez por Ben tê-la aceito como era, e ainda lhe introduzido ao seu círculo de amigos naquele momento tão solitário de sua vida seja o motivo pelo qual ninguém mais do que Lucy naquela cidade tenha compreendido então tão profundamente a real importância das amizades... ela não poderia deixar seus amigos na mão.

Por coincidência (ou não), Lucy compreendeu plenamente que aceitar se juntar aos amigos naquela jornada não era uma questão de opção quando seus pés a fizeram parar exatamente diante da lápide de William Walker, o Billy. Alguma força se manifestou no porão da casa de Ben naquela manhã, e agora uma nova força guiou seus passos e a fez chegar precisamente ali, diante daquele túmulo, talvez uma força antagônica à primeira, algo que queria lhe mostrar que ela e os amigos não foram incluídos nessa história de forma aleatória, mas que foram escolhidos para participar daquilo tudo, e ao se dar conta disto Lucy sentiu as mesmas sensações físicas que experimentou ao ver os olhos de Ben quando ele convocou os amigos a atender ao chamado, provavelmente era esta mesma força que estava operando através do amigo naquele instante.

Pensar que existia algo maior se manifestando contra aquela criatura maligna responsável pela onda de assassinatos brutais na cidade de certa forma a acalentou um pouco, afinal, algo queria deter a Coisa e talvez este algo fosse capaz de conferir a possibilidade (mesmo que remota) de 5 crianças conseguirem juntas lidar com poderes além da compreensão. O mundo de Lucy Collins acabava de se expandir, ela ainda se sentia sem chão e perdida em queda livre, mas percebeu então que não é a queda que te mata, é a aterrisagem.

Ela deu um pequeno sorriso diante do túmulo de Billy, pela primeira vez desde aquela manhã sentindo que as coisas poderiam dar certo, não sabia como, não sabia quando, mas era uma sensação que permeava sua alma que ela nem sabia que tinha.

Já estava prestes a fazer o caminho de volta, era por volta das 15:00hrs e tinha que voltar pra casa para ajudar o pai com as tarefas de casa, limpar e lustrar os caixões de amostra, regar algumas das flores que usavam para a construção das coroas funerárias, organizar as faixas fúnebres... estava com estes pensamentos na cabeça quando sentiu os pelos de sua nuca se eriçarem e ter a nítida sensação de que estava sendo observada. Girou sobre os pés em todas as direções tentando avistar alguém, talvez algum funcionário do Cemitério atraído pela curiosidade ao ver uma garota toda de preto passeando sozinha pelo lugar, talvez alguém que estava de passagem para visitar o jazigo de algum ente querido, mas não viu absolutamente nada.

Continuou a andar mas a sensação não a abandonava e sua mente racional começava a se sentir aflita com aquilo, e ficou ainda mais quando ela viu um rastro de folhas correr sobre uma das vielas de túmulos sem nenhum vento aparente soprar, até se acumularem contra a entrada de um portentoso mausoléu para onde ela foi instintivamente guiada, sua necessidade de fazer sentido sobrepujando seus instintos de sobrevivência, ela tinha que saber o que estava acontecendo.

Ao chegar na entrada da construção era possível ouvir o ranger das grades de metal enferrujado balançando sobre as dobradiças, o lugar onde deveria haver um cadeado estava vazio de forma que ela precisou somente empurrar um dos batentes para ganhar acesso ao interior da estrutura que era fracamente iluminado pela pouca luz solar que entrava pelas frestas de ventilação dispostas ao redor da parte superior das paredes onde elas se juntavam com o teto, o lugar era praticamente vazio, à exceção de vasos com flores mortas embutidos em cada um dos quatro ângulos da construção, diante de si Lucy via uma escadaria com degraus de cimento que levavam ao subsolo do mausoléu, certamente onde estavam dispostas as gavetas que sepultavam os ocupantes daquele lugar.

Pé ante pé ela começou a descer os degraus, o único som audível era o da sua própria respiração que começava a soar descompassada conforme ela submergia na penumbra, o frio outonal lá de fora agora era uma leve brisa se comparada ao enregelar que cobria seus pequenos ossos, seus olhos piscando várias vezes na tentativa de se adaptarem à escuridão onipresente, o coração batendo na garganta pela sensação inevitável e cada vez maior de que ela estava sendo atraída pra lá por algo mais do que a curiosidade.

Quando enfim chegou ao fundo do recinto ela deparou-se com uma grande lápide central onde repousava eternamente imóvel sobre a tampa uma fantasticamente realística estátua em forma de mulher coberta por uma finíssima camada de seda esculpida em mármore. O subsolo era construído em forma octogonal, e em cada uma das intersecções haviam gavetas fechadas com placas contendo os nomes de seus moradores, Lucy se aproximou de uma destas placas e usou sua mão para varrer a camada de poeira acumulada para ler o nome inscrito em alto relevo: Robert Sheridan.

Ela já havia ouvido aquele nome, mas não lembrava-se de onde. Movida pela força indizível que a conduzia, ela limpou a poeira da placa da gaveta à direita: Elisabeth Holmes.

Elisabeth Holmes, como assim? Duas pessoas de famílias diferentes em um mesmo mausoléu? Não era a primeira vez que algo assim aconteceria na história do mundo, mas sem dúvida continuava sendo algo bastante raro de se ver. Intrigada, ela limpou uma terceira placa: Rick Grimes. Então ela deixou escapar um pequeno grito quando a lembrança de onde já havia visto aqueles nomes a assaltou por completo: eram os nomes das 3 primeiras vítimas da Coisa... as 3 primeiras crianças assassinadas brutalmente em Sweet Home. Então uma forte ventania formou-se a partir do centro da estátua da mulher deitada, não... não uma ventania, uma espécie de mini furacão. Partículas de pó rodopiaram pelo ar, o cabelo e as roupas de Lucy esvoaçavam e chicoteavam, ela teve que proteger os olhos para não enchê-los de poeira e sentia a areia fina pinicando ardentemente em sua face e mãos, e tão rápido quanto surgiu o tornado se foi, acumulando poeira em todos os cantos do octógono, permitindo que ela pudesse ler claramente os outros nomes nas placas: Alfred Sheep Jennis, Bartholomeu Clark, Theodore Mark Simpson, Benjamin Walker e Lucy Collins.

Horrorizada ela recuou instintivamente para longe das placas, indo para o centro da sala até esbarrar com as costas contra a lápide, suas roupas antes pretas agora ostentavam uma coloração acinzentada provocada pela tempestade de pó, respirar ainda era difícil, o odor de mofo descia-lhe até os pulmões e era tão denso que fechava sua garganta fazendo-a tossir asperamente.

Lucy tomava impulso para deixar aquele lugar macabro pra tras e galgar os degraus de cimento, mas antes que pudesse dar o segundo passo seu pescoço foi arqueado para tras, alguma coisa a estava prendendo pela trança de cabelos pretos cobertos de pó, Lucy gritou de maneira alucinada, forçou a cabeça para frente, agarrou a trança levando as duas mãos atrás da cabeça e a puxou com força, mas ela não se moveu nem um milímetro. Lucy não queria olhar pra tras, sabia que não deveria fazer isso, estava coberta pela certeza de que se o fizesse apenas seria engolfada ainda mais por aquela sensação pavorosa de medo e impotência mas a mesma força misteriosa que a impeliu a ir até ali embaixo agora agia como um par de mãos misteriosas, fazendo a garota voltar a cabeça na direção da estátua da mulher deitada.

Sob o manto da escultura algo começou a se mover fazendo surgir calombos no mármore, agitando-o e fazendo-o ondular como uma coisa viva. Então a trança de Lucy foi liberta, mas já era tarde demais, ali diante dela a figura deitada retirou o véu de mármore e ergueu-se para olhar a menina nos olhos, olhos leitosos em órbitas escuras e encovadas, partes do rosto devoradas por vermes, os cabeços negros sem brilho e quebradiços. Lucy reconheceu imediatamente de quem se tratava.

- Ahhhh... olha a filhinha da mamãe aqui... ooooooi, querida... você não sentiu saudades? Você não estava morrendo de saudades? A mamãe sim, Lucy.... HA HA HA HA HAAAAA!!! – da mesma maneira que soube que aquele era de alguma forma o cadáver de sua mãe Lucy soube na mesma hora que aquela não era a voz dela, pelo simples e irremediável fato dela já não se lembrar direito de como era a voz de sua mãe, o que não queria dizer que ela não reconhecesse aquela voz... ela reconhecia sim, a ouvira apenas algumas horas atrás através do porão da casa do Ben... era a voz do palhaço Pennywise, a Coisa que matou Billy e agora ameaçava matar a ela e, pelas inscrições nas placas, todos os seus amigos que ela conheceu desde que chegou à cidade.

- Venha cá dar um abraço na mamãe, Lucy, veeeeeenha... e vamos ficar juntinhas pra todo o sempre e sempre, não é legal? – propôs a mãe zumbi, saindo da lápide e botando os pés putrefatos no chão frio da estrutura.

- E logo logo a mamãe vai trazer mais companhias pra você... o seu amiguinho cegueta Alfie, o Ted Caixa-Baixa, o rechonchudinho do Bart... até o chorão do Ben, claaaaro... a mamãe sabe que você quer chupar o pintinho do Ben, não quer? A minha vadiazinha vai poder chupar todos os pintinhos que ela quiser... tooooooooooodos eles mortinhos da silva....

- Agora VEM COM A MAMÃE!!! – e avançou na direção de Lucy que ouviu o som dos portões de barras de ferro baterem lá em cima... e agora, o que fará a pequena Lucy Collins?





Precisamente às 14 horas, 59 minutos e 37 segundos Ted Simpson estava parado diante de uma pavorosa e rechonchuda figura vestida de trapos carcomidos e chapéu de palha semi destruído. Ela olhava de cima para o garoto, sua sombra o cobria e estendia-se muito além projetando uma imensa cruz sobre a plantação de milho. Corvos de penas pretas que reluziam ao sol pousavam aqui e ali sobre o homem imóvel, Ted os ignorava completamente, mantendo os olhos fixos no ponteiro de marcação dos segundos do único despertador da família Simpson, naquele momento no mundo só existiam ele, o despertador, os espantalhos e os corvos... e quando o despertador marcasse 15:00hrs  um deles não estaria mais alí.

Montado sobre o espantalho e sobre seu poste de sustentação havia uma das primeiras invenções de Ted. Uma longa corda passava da extremidade de um dos braços do espantalho até o outro, correndo por uma roldana presa atrás do pescoço de palha, firmemente pregada na madeira. Nas pontas de cada braço, onde estavam aquilo que representavam as mãos do boneco a corda passava por dentro de um anel metálico grosso e por ele descia em direção ao chão. Na ponta da mão direita havia uma biqueira no estilo gatilho de regador, e atado à ponta dela uma mangueira que era desviada de um dos canos de irrigação da plantação. Descendo pela mão direita a corda era amarrada na alça de uma lata de querosene que tinha um pedaço de madeira grosso pregado ao lado formando uma espécie de antena e era mais alto do que a alça, o fundo da lata tinha três furos circulares. Na ponta da corda que descia pelo lado esquerdo havia uma pedra de tamanho mediano, pesando exatamente dois quilos.

Preso um pouco acima do pedestal havia a roda de uma bicicleta que Ted cortou e introduziu horizontalmente até se encaixar no centro do poste, abraçando-o firmemente. Uma correia grossa corria em volta do corpo redondo da roda, e passava no lado esquerdo e no direito por roldanas ligadas a pedais de bicicleta.

Quando faltavam 10 segundos para as 15 horas o engenho de Ted ganhou vida. A água que estava dentro da lata de querosene atingiu a marca metálica feita com a ponta afiada de um prego no interior metálico, isso significava que ela havia atingido o ponto crítico onde o peso da lata após perder o volume certo de água que vazava pelos buracos no fundo e caia em uma calha que a direcionava até a plantação havia se equalizado com o peso da pedra amarrada na ponta do braço esquerdo do espantalho, e conforme os segundos avançavam a pedra começou a descer de um lado enquanto a lata subia do outro.

Assim que a pedra atingiu o pedal do lado esquerdo este desceu e fez girar a roldana que por sua vez colocou em movimento a correia que fez girar a roda de bicicleta que consequentemente girou o poste do espantalho, fazendo-o girar sobre o próprio eixo num giro preciso de 180 graus. A haste de madeira presa na lata ao chegar no topo do braço direito pressionou o gatilho da torneira, fazendo um fluxo de água começar a jorrar para dentro da lata, em 10 minutos a água dentro dela se avolumaria o suficiente para equiparar-se ao peso da pedra do outro lado, a suplantaria, e faria o espantalho girar novamente no movimento inverso... Ted havia criado um espantalho automático utilizando apenas a força hidráulica e da gravidade, e sem saber, feito tudo aquilo de maneira “verde”, sem desperdício de água e ecologicamente correto.

Ted queria conseguir imaginar uma invenção que ajudasse a ele e os amigos com aquele caso, algo que pudesse planejar, medir e testar, mas ele não tinha os dados necessários para completar aquela equação, não conhecia suas variáveis, não havia um X nem um Y, nem um mísero Z, nada.

Para muitos era um paradoxo que o garoto Simpson, tão apegado às ciências que podem medir/pesar/quantificar e provar fosse ao mesmo tempo tão apegado à fé em Deus. Como muitos eles acreditavam que a ciência e a religião eram caminhos diferentes que poderiam se cruzar tanto quanto o óleo com a água, mas para Ted uma não podia excluir a outra, na verdade, não havia a existência de uma sem a outra... em sua mente desde muito cedo ele se convenceu de que somente uma entidade divina poderia criar algo tão perfeito quanto a ciência, algo que se encaixava com perfeição, que se sustentava e complementava.

Era esta a fé que o fazia não desistir diante dos obstáculos. Eles estavam enfrentando algo terrível, sim, um Mal que era capaz de cometer os assassinatos mais hediondos, mas se havia o Mal, para Ted, era apenas mais uma constatação de que deveria existir a sua contraparte, obrigatoriamente deveria haver um Bem, afinal, alguém muito mais sábio já havia dito (e a ciência comprovado) que: “A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade: as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas em sentidos opostos”. A dualidade universal estava ao lado deles.

Ted apertou com os dedos o crucifixo que trazia preso a uma corrente em volta do pescoço, pediu para que Deus os ajudasse naquela situação, que os iluminasse o caminho para que conseguissem descobrir um meio de parar com aquela onda de assassinatos e expulsar aquela Coisa da cidade e do mundo.

Quando terminou de fazer seu pedido uma pergunta emergiu em sua cabeça, na verdade, uma linha de raciocínio: Todo corpo em repouso tende a permanecer em repouso até que força seja aplicado sobre ele. Sendo assim, ALGO colocou aquela Coisa em movimento, algo a evocou, a despertou, a sumonou, ou seja lá o que for... e a pergunta era: O que? Ted compreendeu que se conseguisse a resposta para esta pergunta, poderia então procurar um propósito por tras desta força, e conhecer este propósito poderia dar a ele e aos amigos a chance de identificar meios para lutar contra ela.

Era evidente que a Coisa estava se alimentando de carne, até agora de carne de crianças... mas por que ela se alimentaria apenas de partes dos corpos? Por que os deixava à mostra? A Coisa pareceu demonstrar inteligência quando apareceu para ele e os amigos naquela manhã, ela tinha um intelecto (por mais bizarro que fosse), então por que razão ela deixaria os corpos de suas vítimas a céu aberto? Por que ela apareceu para eles? O que ela ganhava ao atrair atenção para sí?

Medo.

Esta era a resposta! Ela não temia ser apanhada, por isso não se preocupou em ocultar os corpos ou em simplesmente devorá-los completamente... os ataques selvagens serviam a um propósito: aterrorizar os cidadãos de Sweet Home, plantar o medo em seus corações. Por isso estava escolhendo crianças, os alvos mais indefesos, que tinham o maior potencial de chocar os habitantes da cidade... e se não fosse dos corpos que a Coisa estivesse se alimentando, mas sim deste medo provocado?

O fato dela se mostrar abertamente para ele e o restante do grupo também dizia mais uma coisa sobre a criatura: ela tinha uma confiança plena de que não poderia ser detida ou enfrentada, ela os ameaçou e os deixou vivos para provar que era superior a eles, que poderia alcança-los a hora que quisesse e eles não podiam fazer NADA a respeito... e este era o erro da coisa: sua confiança exacerbada, isso demonstrava traços inequívocos de vaidade e orgulho e se Ted e os amigos conseguissem encontrar um meio de usar estas convicções da Coisa contra ela mesma, talvez conseguissem deixa-la furiosa, furiosa por ser confrontada por um bando de pirralhos, e a raiva (Ted bem o sabia) era uma ótima maneira para se deixar levar a cometer os erros mais estúpidos.

Mas o que eles poderiam fazer para irritar a Coisa? Como ferir seu orgulho? Ele ainda não sabia exatamente ao certo, mas a primeira coisa que lhe ocorreu foi fazer exatamente o que a Coisa fez: aparecer na “casa” dela de surpresa, mostrar que eles poderiam encontra-la também, que ela não era inalcançável como acreditava ser.

Ótimo... agora era só uma questão de encontrar o covil da Coisa, uma tarefa muito fácil SE houvessem placas indicando a direção, mas não haviam. Os pais de Ted evitavam comentar os casos dos assassinatos das crianças na frente dos filhos, mas quando o número de mortes passou de meia dezena era impossível não ouvir aqui e ali sobre como, quando e onde os corpos mutilados foram encontrados. A questão é que todos eles foram localizados em locais diferentes da cidade, por pessoas diferentes e em horários diferentes. A Coisa poderia ter realizado seu ataque a partir de vários lugares mas com certeza deveria haver algum traço em comum, algo que esteve presente em todos os assassinatos (tirando a bestialidade dos ataques).

A mãe de Ben disse que haviam balões amarrados ao pescoço de Billy e que eles estavam dentro de um bueiro. Os restos de balões e do cordão que Pennywise deixou cair no gramado fora da casa de Ben também tinha cheiro de esgoto... teriam a Coisa deixado para trás algo que remetesse ao esgoto próximo ao local de onde os outros corpos foram encontrados? Ted suspeitava que sim.

Como um sinal de que estava seguindo na direção certa, Ted sentiu uma brisa fresca acariciar o seu rosto, aquilo foi o suficiente para fazê-lo acreditar que sim, valia à pena colocar à prova estas suspeitas.

Era por volta das 15:30hrs quando o menino começou a percorrer o caminho de volta pra casa, os pés de milho eram como uma floresta densa de árvores altas diante de alguém tão pequeno quanto ele, e mesmo aquela sendo uma das safras mais fracas a quantidade de milho era suficiente para impedir que ele enxergasse mais do que poucos metros diante de si, mas Ted não se sentia perdido, sabia onde o Sol estava e onde sua casa ficava em relação a ele, e isso o fazia avançar sem se deter ou vacilar até que...

A brisa que sentira anteriormente voltou. Ted abriu os braços e ergueu a cabeça na direção do céu aguardando para ter novamente aquela sensação de enlevação, mas ao invés disso ele sentiu a intensidade do vento aumentar drasticamente. O ar era soprado agora em rajadas fazendo os pés de milho balançarem forte, espigas e folhas de bordas cortantes começaram a açoitar o corpo de Ted arranhando qualquer parte de pele exposta.

Ele tentou alcançar o crucifixo novamente, mas antes que o fizesse sentiu o metal ferver em sua pele até derreter sobre o peito deixando a forma de uma cruz na pele queimada, Ted encolheu-se no chão, tentou rastejar por entre aquele mar de fúria verde. Minhocas, baratas, centopeias e toda uma variedade de insetos brotaram da terra como se estivessem sendo expulsos dela, alguns subiram pelos braço e pernas do garoto, quando ele tentou gritar por socorro uma dúzia de corvos de olhos vermelhos passou rasante por sua cabeça e voltearam para retornar e começar a bicar suas costas e o couro cabeludo, seus bicos afiados provocando cortes na carne.

Ted ergueu-se batendo os braços freneticamente e berrou com todo o ar de seus pulmões para que aquilo parasse... e tudo parou. Os pés de milho ficaram imóveis, os corvos sumiram, os insetos desapareceram, tudo o que restou daquele ataque pavoroso foram os cortes e escoriações em seu corpo e roupas. Ted sentiu as lágrimas quentes escorrerem por suas bochechas e quando começou a correr na direção de casa acabou dando de cara com algo que estava diretamente no sentido contrário dela: Lá, pousado imóvel sobre o poste estava a figura de um medonho Palhaço de braços abertos e sorrindo para Ted.

- Hummm... então quer dizer que o Geniozinho acha que sabe de alguma coisa sobre mim, é, Teeeeed? Acha que pode ir na minha casinha, colocar um saquinho com cocô dentro, tocar a campainha e sair correndo?

- Ahhhh Teddynho, Teddynho, Teddynho... seria tãããããooooo divertido ver vocês tentarem fazer isso, você e seus amiguinhos aloprados...

- Você sabe o que seria ainda melhor do que isso, Teddyzinho? Seria esfolar caaaaaaada um deles bem devagarzinho na sua frente. Eu poderia até arrancar a pele do rosto deles e usar pra fazer um teatrinho de fantoches, não seria o máximo, Teddynho?

- E por falar em fantoches... olha só o que vem lá, Teddynho! – disse a Coisa, apontando por sobre o ombro de Ted. Quando olhou o garoto viu o espantalho que deveria estar no poste, mas ele não estava nada imóvel, em vez disso estava caminhando rapidamente na direção do menino, segurando uma foice em uma mão e um facão na outra.

- Eu acho que ele veio cobrar os direitos trabalhistas, Teddynho... você o fez trabalhar muuuuito tempo de graça... HÁ HÁ HÁ HÁ HAAAAA....

- Ajoelhe agora e peça ajuda ao seu deuzinho, Ted... veja se ele responde antes do espantalho ou de EU mesmo te alcançar, VAI!

E agora com um salto Ted se via entre um espantalho enfeitiçado e por uma Coisa assassina de crianças... o que ele fará agora?

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Re: Sweet Home

Mensagem por Lucy Collins em Qui 22 Jun - 20:58

Tudo aquilo já era bizarro demais para a cabeça de Lucy e cenas aparentemente sobrenaturais vindas de um ser maligno eram ainda pior, não poderia ser fadas e duendes? Não claro que não, totalmente tolice pensar que o sobrenatural se revelaria através de coisas fofas e bonitinhas, e mesmo se tivesse sido esse o caso, Lucy jamais acreditaria nem mesmo vendo com seus próprios olhos ou mesmo se pudesse tocar, mas esse ser estranho e vulgar trazia muito mais provas de sua veracidade só mente pelo sinistro arrepio que tomava conta de seu corpo ao ouvir sua voz e sentir seu cheiro, e agora aquela coisa tentava se passar por sua falecida mãe, essa figura zumbi com vermes saltando pelos olhos e o cheiro de sangue podre não a incomodava, não lhe dava nojo, nem mesmo se ela acreditasse que aquela figura era mesmo sua mãe. O que realmente estava mexendo com seus nervos era a maneira como essa coisa se dirigia a ela, nada nesse mundo a irritava mais que ouvir a palavra “vadia” era como um ativador elétrico em seu sistema mental, e talvez justamente por isso aquela coisa estivesse dizendo tais coisas, parecia que ele sabia, conhecia intimamente seus medos e seus receios.

Mas agora Lucy não tinha tempo para esbravejar sua ira, e mesmo que quisesse acho que não conseguiria, ela estava congelada observando a cena e observou quando aquela coisa se levantou e mais rápido do que um morto vivo poderia andar veio em sua direção, e ao ouvir o barulho do portão de ferro bater seu corpo deu pulo e sua ação poderia facilmente julgada pelo medo de morrer, mas na verdade o que a impulsionou não foi o medo e sim a vontade de ajudar seus amigos, ajudar o Ben a vingar a morte de Billy.

Lucy pressionou o tecido de seu vestido em sua mão esquerda e sentiu o pó, se lembrando de como teve que cobrir os olhos para evitar que aquela mesma poeira invadisse seus olhos, então uma idéia burra, porém útil lhe deu uma possibilidade para conseguir sair dali e em um rápido movimento apanhou a barra de seu vestido e o bateu para frente, como se estivesse batendo um tapete velho ao mesmo tempo virou seu rosto para traz para evitar ser pega pela própria armadilha e a poeira se levantou fazendo uma nuvem esbranquiçada a sua frente permitindo que seu próprio corpo fosse levemente escondido, dando uma rala visão de seus movimentos, e isso certamente lhe daria a vantagem que precisava para correr, já que além da nuvem a ter encoberto também poderia atingir os olhos da besta.

Sem nem ao menos ver o resultado de sua ação, Lucy correu na direção contraria a poeira, seu objetivo era ir ate a escada e subir o mais rápido possível, saindo daquele inferno. E mesmo sabendo que o portão poderia estar fechado mentalmente preparou seu corpo para escalar a grade como uma aranha. Pode parecer mentira, mas aquela mocinha era muito boa em escalar paredes e grades, afinal era uma de suas alternativas menos favoritas para fugir das cenas de vergonha que passava na escola quando aquelas meninas que mais pareciam bonecas falantes resolviam pegar no seu pé. E sua raiva não era pelo fato de ela simplesmente odiá-las por suas ações desumanas e fúteis, mas por saber que jamais seria respeitada como elas, incrível como para a “galera” o legal era ser “vadia”.

E como um impulso elétrico seu corpo se esquentou novamente em raiva só de lembrar-se das enumeras vezes que ouviu essa palavra ser direcionada para ela. Isso lhe deu a força que precisava para executar sua ação mais rápida possível.

Uma vez que estivesse fora do mausoléu seria fácil correr entre as lápides fazendo zig zag para fugir caso a besta maldita fosse atrás dela.

E seu destino é claro, primeiro iria ao local mais próximo onde houvesse algum adulto, neste caso seu próprio pai, que provavelmente estaria na capela arrumando o salão de velórios. E depois iria direto para a casa de Bem, mas depois que tivesse a certeza de que estaria segura.

E pela primeira vez em sua vida Lucy pensava em rezar, pois se o mau sobrenatural é real, é possível que o bem também seja real, e se esse for o caso é bom que ele sempre vença mesmo, ou então logo estariam tooooodos moooortos.
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1. Dificultar a visão do palhaço com a poeira para conseguir subir as escadas;
2. Escalar a grade de ferro e sair do inferno.
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Re: Sweet Home

Mensagem por Mestre do Jogo em Qui 22 Jun - 21:11

Vamos lá...

Lucy pretende ganhar tempo obstruindo a visão da Coisa e depois pular o portão do mausoléu;

Dificuldade da primeira ação: 6
Dificuldade da segunda ação: 3

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Re: Sweet Home

Mensagem por Mestre do Jogo em Qui 22 Jun - 21:11

Rolagem em separado, porque a anta aqui esqueceu...

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Re: Sweet Home

Mensagem por Mestre do Jogo em Qui 22 Jun - 21:11

O membro 'Mestre do Jogo' realizou a seguinte ação: Rolar Dados


#1 'Dados' :

#1 Resultado : 10

--------------------------------

#2 'Dados' :

#2 Resultado : 7

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Re: Sweet Home

Mensagem por Mestre do Jogo em Qui 22 Jun - 21:13

kkkkk

Lucy conseguiu as duas ações... mas pra deixar as coisas claras: A Dificuldade 6 foi porque a visão da Coisa se baseia mais do que nos olhos.

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